Num julho de uns anos atrás recebi três chamados na mesma semana pela mesma queixa: “o ar não esquenta”. Nos três, o aparelho estava perfeito.
Dois eram modelos só frio, que nunca tiveram função de aquecer. O terceiro era quente e frio, mas o dono estava apertando o botão errado no controle.
Foi a semana em que entendi que quase ninguém sabe o que o split faz no inverno. E a maioria nem sabe qual dos dois tipos comprou.
Então vou por partes: primeiro como descobrir o que você tem em casa, depois a sequência pra usar direito, e no fim onde essa história não compensa.
Antes de tudo, descubra se o seu split esquenta
Existem dois tipos no mercado brasileiro. O só frio resfria e desumidifica. O quente e frio faz isso e ainda inverte o ciclo pra jogar calor pra dentro.
O jeito mais rápido de saber é olhar o controle remoto. Procure o símbolo de um sol, ou a palavra HEAT, na lista de modos.
Se o controle só tem floco de neve, gota, ventilador e a letra A de automático, o aparelho é só frio. Não tem ajuste, não tem configuração escondida, não esquenta.
Segunda confirmação: a etiqueta na lateral da evaporadora ou na caixa. Nos modelos quente e frio aparece capacidade de aquecimento em BTU/h além da de refrigeração.
Terceira pista, essa vale pra quem comprou usado: o modelo. Muita fabricante usa a letra Q, ou a expressão quente/frio, dentro do código na etiqueta.
No Brasil, o quente e frio é minoria nas prateleiras do Norte e do Nordeste e é comum do Sudeste pra baixo. Se você mora em Curitiba ou em Caxias, a chance é maior.
Uma coisa que não existe: adaptar um só frio pra esquentar. A válvula de reversão é peça de fábrica, dentro do circuito selado. Não é acessório.
Como o aparelho tira calor do ar frio lá fora
Parece contraintuitivo, mas o split quente e frio não gera calor. Ele transporta calor de fora pra dentro.
No verão, o gás recolhe calor do quarto e despeja na rua. No inverno, uma válvula inverte o caminho e ele recolhe calor do ar da rua e despeja no quarto.
Ar a 10 °C ainda tem bastante energia térmica dentro. O que o aparelho faz é concentrar essa energia difusa e entregar concentrada do lado de dentro.
É por isso que o consumo é tão diferente de um aquecedor comum. Aquecedor de resistência transforma um quilowatt-hora de eletricidade em um quilowatt-hora de calor, e ponto.
Um split quente e frio, em dia ameno, entrega algo entre 2,5 e 4 unidades de calor por unidade de eletricidade. Isso é o COP que aparece na ficha técnica.
Na conta prática: um 9.000 quente e frio aquecendo um quarto puxa de 700 a 1.100 W em regime. Um aquecedor a óleo de 1.500 W puxa 1.500 W o tempo inteiro.
Se quiser fazer a conta em reais do seu caso, o caminho está em quanto custa por hora deixar o ar-condicionado ligado. A lógica é a mesma no modo quente.
A sequência pra usar o modo quente sem se frustrar
Essa ordem resolve quase todas as reclamações de “esquenta pouco” que eu atendi. São seis passos e leva menos de meia hora.
- Desligue o disjuntor do aparelho antes de abrir qualquer parte. Não basta desligar pelo controle. A placa continua energizada e o ventilador pode partir sozinho.
- Limpe o filtro. No modo quente ele é ainda mais crítico, porque filtro sujo derruba a vazão de ar e o aparelho corta por proteção de temperatura.
- Religue o disjuntor e selecione o modo HEAT no controle. Não use o modo automático. Ele decide sozinho e costuma escolher ventilar quando o quarto está morno.
- Marque entre 22 e 24 °C. Marcar 30 não faz esquentar mais rápido, só faz o aparelho trabalhar além do necessário e derrubar a umidade do quarto.
- Aponte as aletas horizontais pra baixo. Ar quente sobe sozinho. Se você deixar as aletas na horizontal, o calor fica todo no teto e o chão continua gelado.
- Espere de três a cinco minutos antes de reclamar. O aparelho segura o ventilador interno até a serpentina esquentar, pra não soprar ar frio na sua cara.
Esse último ponto é o que mais gera chamado à toa. A pessoa liga, não sai vento nenhum e conclui que quebrou.
É proteção contra sopro frio, e é comportamento normal em quase toda marca. Alguns modelos mostram um símbolo piscando enquanto isso acontece.
Por que ele para sozinho e solta vapor lá fora
No modo quente, quem gela é a unidade externa. E quando o ar da rua está frio e úmido, a serpentina de fora acumula gelo.
Gelo bloqueia a troca de calor, então o aparelho precisa derreter aquilo periodicamente. Esse é o ciclo de degelo, e ele é obrigatório.
Durante o degelo o aquecimento para. O ventilador interno costuma desligar e a condensadora solta uma nuvem de vapor que parece fumaça.
Dura de três a dez minutos e se repete a cada quarenta minutos ou uma hora quando está bem frio lá fora. Em dia seco, quase não acontece.
Muita gente liga pro instalador achando que a unidade externa pegou fogo. É vapor de água, não fumaça, e some sozinho.
Outra coisa que muda no inverno: a água. No modo frio, o condensado sai pelo dreno da unidade interna.
No modo quente, ele se forma na unidade externa e pinga no chão da área de serviço ou na sacada. Isso é normal e não indica defeito.
Se estiver pingando por dentro no modo quente, aí sim tem algo errado. Os motivos possíveis estão em ar-condicionado pingando dentro de casa.
Quanto custa uma noite de aquecimento na prática
Vale fazer a conta com números redondos, porque a diferença entre os dois caminhos é grande e quase ninguém mede.
Cenário: quarto de casal, split de 9.000 quente e frio, ligado das dez da noite às seis da manhã. São oito horas.
Um inverter nesse serviço puxa forte nos primeiros vinte minutos e depois cai. A média ao longo da noite fica por volta de 0,7 a 0,9 kW.
Oito horas a 0,8 kW dão 6,4 kWh na noite. Com tarifa residencial na faixa de R$ 0,75 a R$ 1,05 por kWh, isso fica entre R$ 5 e R$ 7 por noite.
Agora o aquecedor a óleo de 1.500 W no mesmo quarto. Ele também cicla, mas com termostato mais bruto, e a média costuma ficar perto de 1,1 kW.
Oito horas a 1,1 kW dão 8,8 kWh, ou algo entre R$ 6,50 e R$ 9 na mesma noite. E o aquecedor a óleo aquece um cômodo pequeno, não um quarto de casal inteiro.
A diferença por noite parece pequena. Multiplique por sessenta noites de inverno e ela vira de R$ 90 a R$ 150 na temporada.
Duas ressalvas honestas. A tarifa muda por distribuidora e por bandeira, então trate esses valores como faixa, não como preço.
E o split quente e frio custa mais caro na compra. Se você já tem um só frio funcionando bem, trocar só pra aquecer raramente fecha a conta.
O que muda no aparelho quando ele passa meses parado
Quem não tem ciclo reverso desliga o aparelho em maio e só volta a ligar em outubro. Esses cinco meses fazem coisas com ele que ninguém espera.
A primeira é o cheiro. A serpentina passou o verão inteiro úmida e foi desligada num dia qualquer, com a superfície molhada. Ela seca devagar, dentro de uma caixa fechada.
Por isso a primeira ligada da temporada é justamente a que solta o cheiro mais forte de todos no quarto. Não é o aparelho estragando: é meses de depósito soltando de uma vez.
A segunda é o bicho. Carcaça parada e abrigada, na área externa, vira abrigo — e mangueira de dreno parada, virada pra cima, é um convite pra aranha e vespa.
A terceira é o ressecamento. Borracha de coxim, isolamento exposto ao sol e vedação de flare passam o inverno sem vibração nenhuma e com variação de temperatura, o que ajuda a envelhecer o conjunto.
Por isso o fim do inverno é o melhor momento pra higienização, e não o primeiro dia de calor. A agenda de quem faz o serviço está vazia e o preço costuma ser melhor.
Se você tem ciclo reverso e usa no inverno, escapa da maior parte disso. O aparelho não fica parado, a serpentina trabalha e o dreno continua correndo.
Nesse caso, em compensação, o intervalo de limpeza conta os doze meses e não os seis de verão. Aparelho que roda o ano inteiro suja o ano inteiro.
Onde o ciclo reverso perde pro aquecedor comum
A eficiência do split quente e frio cai junto com a temperatura externa. Faz sentido: quanto menos calor existe no ar da rua, mais difícil é recolher calor dele.
Em torno de 7 °C externos, a capacidade de aquecimento já está bem abaixo do número da etiqueta. Abaixo de zero, a maioria dos modelos domésticos não dá conta sozinha.
Quem mora em cidade de serra no Sul conhece isso: nas madrugadas de geada, o aparelho passa mais tempo em degelo do que aquecendo.
Nesses dias o aquecedor a óleo ou o de resistência ganha, não por economia, mas por entregar calor sem parar. É o caso em que o conselho padrão não vale.
O outro caso é ambiente grande e aberto. Sala integrada com cozinha, pé-direito duplo, escada aberta pro andar de cima.
Ar quente sobe e vai embora pela escada. O aparelho fica ligado a noite inteira aquecendo o teto do segundo andar.
Tem ainda a questão do ar seco. O modo quente reduz bastante a umidade relativa do quarto, e quem tem rinite sente na garganta pela manhã.
Uma bacia com água no canto não resolve grande coisa. Umidificador resolve, mas é mais um aparelho ligado e mais um filtro pra lavar.
Perguntas que aparecem sempre
Deixar no modo quente estraga o compressor?
Não. A inversão de ciclo é função de projeto e o compressor é o mesmo dos dois lados. O que desgasta é partir e parar demais, não o modo escolhido.
O cuidado real é não alternar entre quente e frio várias vezes seguidas no mesmo dia. Dê ao aparelho uns minutos entre uma coisa e outra.
Vale a pena pagar mais caro por um quente e frio?
Depende de quantas noites por ano você usaria. Em cidade que tem duas semanas de frio, dificilmente a diferença de preço volta.
Onde o inverno dura três ou quatro meses, volta rápido, porque você deixa de comprar e de ligar um segundo aparelho.
Preciso limpar o filtro com a mesma frequência no inverno?
Sim, e por um motivo extra. No modo quente a poeira que ficou no evaporador é assada, e o cheiro fica muito mais evidente.
O intervalo recomendado e o que muda com pet em casa estão em de quanto em quanto tempo limpar o filtro.
Resumindo o que fazer hoje: olhe o controle, ache o símbolo do sol ou a palavra HEAT, e você já sabe se essa conversa vale pra você.