Carga térmica é a conta de quanto calor entra no cômodo por hora. O aparelho precisa tirar essa mesma quantidade pra segurar a temperatura no número que você marcou.
Num quarto de casa, uma fatia grande desse calor entra pela janela, como radiação solar atravessando o vidro. É por isso que cortina e película viram assunto.
A resposta curta é que mudam, sim, mas não do mesmo jeito nem na mesma proporção. Uma age antes de o calor atravessar o vidro, a outra age depois.
Abaixo está o checklist que eu usava pra dizer ao cliente se valia mexer na janela antes de gastar num aparelho maior.
Por que a janela pesa tanto na conta de um quarto
Parede de alvenaria rebocada tem inércia. Ela absorve calor de manhã e devolve devagar, de tarde e de noite. Vidro não faz nada disso.
Vidro comum de 4 mm deixa passar direto a maior parte da radiação que bate nele. O que entra vira calor dentro do quarto no mesmo instante.
Na prática, um metro quadrado de janela batida pelo sol da tarde entrega sozinho algo entre 500 e 800 BTU/h em pico.
Uma janela de 1,20 por 1,20 tem 1,44 m². Faça a conta e ela pode estar somando de 700 a 1.100 BTU/h ao cômodo no fim da tarde.
Pra comparar: uma pessoa adulta em repouso soma cerca de 600 BTU/h. Sua janela pode estar valendo duas pessoas extras dentro do quarto.
Esse é o motivo de a regra de bolso pular de 600 pra 800 BTU/h por metro quadrado quando o quarto pega sol da tarde. É a janela pesando, não a metragem.
Se você ainda está escolhendo capacidade, vale ler antes quantos BTUs o seu quarto realmente precisa, porque o item janela entra lá dentro.
Os seis itens que você precisa checar na sua janela
Não dá pra decidir entre película e cortina sem olhar a janela. Cada item abaixo muda a resposta.
- Orientação. Use a bússola do celular. Oeste e noroeste são o pior caso. Leste esquenta de manhã e alivia à tarde. Sul quase não recebe sol direto no Brasil.
- Área envidraçada. Meça largura por altura do vidro, não do vão inteiro. Abaixo de 1 m² o assunto muda pouco.
- Horas de sol direto. Fique no quarto num dia de céu limpo e anote quando a mancha de sol entra e quando sai. Duas horas e cinco horas são casos diferentes.
- O que existe do lado de fora. Beiral, marquise, árvore, prédio na frente. Sombra externa já resolve parte do problema de graça.
- Tipo de vidro. Incolor simples é o caso comum. Vidro verde, fumê ou duplo já corta uma parte antes de você fazer qualquer coisa.
- Vedação da esquadria. Passe a mão no encontro da folha com o trilho num dia de vento. Fresta é entrada de ar quente e come a economia dos outros cinco itens.
Anote os seis. O que decide o gasto é a combinação de orientação com horas de sol, e não um item isolado.
O que a cortina segura e o que ela deixa passar
Cortina fica do lado de dentro. Quando ela bloqueia a luz, o calor já atravessou o vidro e já está dentro do quarto.
Ela não impede a entrada. Ela intercepta a radiação antes que bata na cama, no piso e no armário, e devolve parte pra fora.
Uma cortina blackout de face clara voltada pro vidro reduz uma parte razoável do ganho de calor. Cortina fina de voil não reduz quase nada.
O erro que eu mais via era blackout preto encostado no vidro. O tecido escuro absorve a radiação, esquenta e vira uma placa quente irradiando pro quarto.
Se for de blackout, escolha forro claro virado pra janela e deixe uns cinco centímetros de folga entre tecido e vidro. O ar que circula ali no meio ajuda.
A vantagem da cortina é o custo e a reversibilidade. Você compra, instala numa tarde e tira quando quiser, sem mexer no vidro.
Em apartamento alugado isso pesa bastante. A regra de preferir o que dá pra desfazer vale pra quase tudo nesse tipo de imóvel, não só pra cortina.
Onde a película ganha da cortina e onde ela não paga
Película fica colada no vidro. Ela reflete e absorve parte da radiação antes que ela entre, que é a posição certa pra atacar o problema.
Os fabricantes divulgam um número de rejeição solar total. As controladoras de calor costumam ficar entre 40% e 70%, dependendo do modelo e da tonalidade.
O preço varia muito por região e por tipo de filme. A faixa que eu via era de algo em torno de R$ 60 a R$ 150 por metro quadrado, já instalada.
Numa janela de 1,44 m² isso dá um serviço na casa de uma a duas centenas de reais. É menos do que a diferença de preço entre um 9.000 e um 12.000.
A aplicação leva menos de uma hora por janela. O que pede paciência é a cura: o filme pode ficar com aspecto leitoso ou com bolhas de água por até 30 dias.
Agora a parte em que o conselho padrão não vale. Janela virada pro sul, ou que só pega sol depois das cinco da tarde, não justifica película.
Nesses casos você paga o serviço, escurece o quarto e não vê diferença na conta. O dinheiro rende mais indo pra vedação de fresta ou pra limpeza do aparelho.
| Item | Cortina blackout | Película controladora |
|---|---|---|
| Onde age | Depois do vidro | Antes do vidro |
| Custo por janela | Dezenas a poucas centenas de reais | Uma a duas centenas de reais |
| Dá pra desfazer | Sim, em minutos | Só raspando o filme |
| Escurece o quarto | Só quando fechada | O tempo todo |
| Melhor caso | Aluguel e sol de tarde curto | Fachada oeste com 4 h ou mais de sol |
Os valores acima mudam bastante entre capital e interior, e mudam de novo conforme a marca do filme. Peça dois orçamentos antes de fechar.
Sombra do lado de fora ganha das duas
Se a obra for possível, nada bate barrar o sol antes que ele encoste no vidro. Toldo, brise, persiana externa e beiral trabalham fora da casa.
A diferença é grande porque o calor que a persiana externa absorve é dissipado no ar da rua. O que a cortina absorve é dissipado dentro do quarto.
Em casa térrea com laje, um beiral de 60 a 80 cm sobre a janela oeste já corta o sol das horas mais quentes de boa parte do ano.
Já vi quarto que só ficou utilizável depois que o dono botou uma persiana de alumínio externa. O aparelho era o mesmo 12.000 que antes não vencia.
O que muda no custo é a ordem de grandeza. Persiana externa motorizada numa janela de quarto passa fácil da casa do milhar, e varia muito por medida e acabamento.
Em apartamento, esbarra na convenção do condomínio, que costuma proibir alteração de fachada. Vale checar a convenção antes de pedir orçamento.
Uma alternativa barata que funciona melhor do que parece: planta de porte médio no lado de fora, num vaso, na altura do peitoril.
Ela não bloqueia o sol inteiro, mas quebra a incidência direta em parte da janela. Custa pouco e não depende de aprovação de ninguém.
O que fazer com o resultado do seu checklist
Janela ao sul, ou menos de 1 m² de vidro: não mexa. Gaste o tempo conferindo vedação de porta e limpeza de filtro, que rendem mais.
Janela ao leste com sol até o meio-dia: cortina de forro claro resolve. O calor da manhã ainda tem a tarde inteira pra ser dissipado.
Janela a oeste com três horas ou mais de sol direto: aqui a película paga. É o caso em que a conta do aparelho e a conta de luz mudam junto.
Janela a oeste com sombra de prédio a partir das quatro: teste a cortina primeiro, por um verão. Pode ser que o vizinho já esteja fazendo o serviço de graça.
Fresta na esquadria em qualquer orientação: conserte antes de qualquer outra coisa. Escova de vedação e borracha de trilho custam pouco e barram ar quente.
Uma observação sobre expectativa, porque isso gera frustração. Mexer na janela não faz aparelho pequeno virar grande.
O que ela faz é encurtar o tempo que o compressor passa ligado. Num split convencional, isso aparece como ciclos mais espaçados ao longo da noite.
Num inverter, aparece como rotação mais baixa em regime, que é justamente onde ele economiza. A lógica está em inverter economiza mesmo pra quem usa poucas horas por dia.
E se você está tentando resolver o quarto com um aparelho móvel, a janela pesa mais ainda, porque o duto de saída já rouba parte da capacidade.
Esse caso específico está detalhado em ar-condicionado portátil resolve num quarto pequeno, e vale a leitura antes da compra.
Meça a janela hoje, anote a orientação e as horas de sol. Com esses três números na mão, escolher entre cortina e película deixa de ser palpite.