Quanto custa por hora deixar o ar-condicionado ligado

Quanto custa por hora deixar o ar-condicionado ligado? A resposta honesta é uma faixa: de uns R$0,30 a mais de R$1,50 a cada hora, dependendo do aparelho, do cômodo e da sua tarifa.

Faixa larga desse tamanho não serve pra decidir nada. Por isso o que interessa aqui não é a média, é a conta feita com os seus números.

E ela é simples. São quatro informações, três multiplicações e uma conferência no relógio de luz.

Adianto o erro que aparece em quase todo cálculo que se acha por aí: pegam a potência escrita na etiqueta e multiplicam pela tarifa impressa no meio da conta de luz.

Os dois números estão errados. A potência da etiqueta não é o que o aparelho puxa em regime, e aquela tarifa do meio da fatura não tem imposto dentro.

Um número está inflado, o outro está por baixo. Às vezes os dois erros se anulam por acidente e o resultado sai perto. Na maioria das casas, não.

Os quatro números que fecham o custo por hora

Antes de entrar em cada um, o checklist inteiro. Se você tiver esses quatro, o resto é aritmética de calculadora de celular.

  1. A potência elétrica do aparelho em watts — que não é a capacidade em BTUs, e nem sempre é o número maior que aparece na etiqueta.
  2. Quanto ele puxa em regime, com o cômodo já frio e o compressor ciclando ou modulando.
  3. A sua tarifa em reais por kWh, com imposto e bandeira dentro, tirada da fatura e não de tabela de internet.
  4. Uma medição de uma hora em casa, que serve de juiz quando o cálculo e a realidade discordam.

Cada item revela uma coisa diferente, e cada resultado pede uma ação diferente. É isso que vem pela frente, um de cada vez.

No fim tem os três cenários fechados do começo ao fim: um 9.000 on/off, um 12.000 inverter e um 18.000 de sala.

Item 1 — a potência elétrica está no manual, e não é o número de BTUs

Muita gente acha que 12.000 BTUs significa 12.000 alguma coisa de gasto. Não significa. BTU por hora é capacidade de tirar calor, não consumo de energia.

Convertendo pra watt térmico, 12.000 BTU/h dão cerca de 3.500 W de calor removido. Só que o aparelho não gera esse calor: ele bombeia de dentro pra fora.

Bombear é muito mais barato que gerar. Por isso um 12.000 remove 3.500 W de calor consumindo perto de 1.000 W de eletricidade.

Essa razão entre o que ele move e o que ele gasta é o rendimento do aparelho. Aparelho bom fica em torno de três e meio pra um. Aparelho velho e sujo cai pra dois e meio.

O número que você quer está na etiqueta colada na lateral da condensadora, e repetido no manual. Procure por “potência nominal”, em W, ou “corrente nominal”, em A.

Se só tiver a corrente, multiplique pela tensão e por um fator de potência de 0,9. Um aparelho de 220 V e 5,2 A dá 220 × 5,2 × 0,9, ou seja, algo perto de 1.030 W.

Como ordem de grandeza, e sempre valendo a etiqueta do seu modelo: um 9.000 costuma ficar entre 700 e 900 W. Um 12.000 fica entre 950 e 1.200 W.

Um 18.000 sobe pra faixa de 1.500 a 1.900 W, e um 24.000 vai de 2.000 a 2.600 W. São faixas largas de propósito, porque modelo eficiente e modelo barato de mesma capacidade não consomem igual.

Agora o detalhe que derruba metade dos cálculos. Em aparelho inverter a etiqueta traz dois ou três números: potência mínima, nominal e máxima.

A máxima existe pro momento em que o aparelho está esfriando um quarto quente, e nada mais. Usar a máxima como base é a forma mais rápida de calcular um consumo que nunca vai acontecer.

Tem ainda o consumo mensal declarado na etiqueta do Inmetro, aquela tarja colorida com a letra da eficiência. Ele sai de um ensaio padronizado, com horas fixas por dia e temperatura controlada.

É um número ótimo pra comparar dois modelos na loja. É um número ruim pra prever a sua conta, porque o laboratório não tem sol batendo na janela nem porta abrindo.

Item 2 — em regime o compressor cicla, e a média fica bem abaixo da etiqueta

Aqui está a diferença entre o que a etiqueta promete e o que o aparelho realmente puxa numa noite de uso.

Aparelho on/off, aquele antigo sem inverter, só sabe dois estados. Compressor ligado a plena carga, ou compressor desligado.

Num quarto já frio ele fica algo como 12 a 18 minutos ligado e 6 a 12 minutos parado, repetindo a noite inteira. O ciclo é curto e você escuta.

Chame isso de fator de utilização. Numa noite comum de verão, num quarto bem dimensionado, ele fica na faixa de 50% a 70%.

Então um aparelho de 850 W que fica ligado 60% do tempo puxa, na média, uns 510 W. Não 850.

Só que tem uma parcela que não desliga nunca: o ventilador da evaporadora, aquele que continua soprando enquanto o compressor descansa. Ele consome de 25 a 50 W direto.

Somando, a média real fica perto de 550 W. É esse o número que entra na conta, não o da etiqueta.

No inverter a lógica muda. Ele não desliga o compressor, ele diminui a rotação até achar o ponto em que o frio produzido empata com o calor que entra no cômodo.

Em regime, um 12.000 inverter costuma se acomodar entre 30% e 50% da potência nominal. Na prática, algo entre 350 e 550 W num quarto de tamanho normal.

Os dois tipos têm em comum a primeira hora. Quarto fechado a tarde inteira chega perto dos 32 graus, e tirar esse calor custa caro em qualquer aparelho.

Por isso o custo por hora não é constante. A primeira hora sai quase o dobro da quarta, e é justamente essa diferença que alimenta a discussão sobre ligar e desligar.

Quando alguém te disser “meu ar gasta 1 kW por hora”, pergunte se é medido ou lido na etiqueta. Nove em dez vezes é lido na etiqueta.

Item 3 — a tarifa real da sua conta, com imposto e bandeira dentro

Esse é o item onde quase todo cálculo de internet erra, e erra sempre pra menos.

Na sua fatura tem uma linha detalhando “energia elétrica” com um preço por kWh. Esse preço é a tarifa antes do ICMS, do PIS e da Cofins.

O imposto entra depois, por fora daquela linha, e some no valor final. Quem multiplica o consumo por aquela tarifa está calculando a conta de alguém que não paga imposto.

O jeito honesto é o contrário: pegue o que você pagou e divida pelo que você consumiu. O resultado é o seu custo por kWh de verdade.

Antes de dividir, tire da conta o que não é energia. A contribuição de iluminação pública é valor fixo, e juros, multa ou parcelamento de fatura antiga também não entram.

Um exemplo com números redondos. Fatura de R$287,40, sendo R$18,20 de iluminação pública, com consumo de 320 kWh no mês.

A conta fica 287,40 menos 18,20, dividido por 320. Dá R$0,84 por kWh. Esse é o número que multiplica tudo daqui pra frente.

Fazendo isso em faturas de estados diferentes, o resultado costuma cair entre R$0,70 e R$1,10 por kWh. Varia bastante por distribuidora, por região e pelo ICMS de cada estado.

Não adianta eu chutar a tarifa da sua concessionária. Leva dois minutos pegar a última fatura e fazer essa divisão, e o número passa a ser seu.

Sobre a bandeira tarifária, tem mais medo do que peso. Ela é um adicional que a Aneel define mês a mês, cobrado a cada 100 kWh consumidos.

Conforme a bandeira do mês, esse adicional costuma ficar em algo entre R$2 e R$8 a cada 100 kWh. Convertendo, são 2 a 8 centavos por kWh.

Num aparelho que puxa meio kWh por hora, a bandeira vermelha mexe entre um e quatro centavos na hora. No mês inteiro de ar ligado, mexe uns R$10.

Ou seja: a bandeira sozinha não explica conta que dobrou. O que explica é hora ligada.

Uma exceção que vale conferir. Se você aderiu à tarifa branca, o kWv do começo da noite custa bem mais caro que o da madrugada.

Nesse caso a hora do dia muda o preço, e o ar ligado das 18h às 21h é o mais caro do dia. Na tarifa convencional, que é o padrão da maioria, hora nenhuma custa diferente da outra.

A conta fechada em três cenários, do começo ao fim

Vou usar R$0,84 por kWh nos três, que foi o número do exemplo acima. Troque pela sua tarifa e refaça, é a mesma sequência.

A fórmula é sempre a mesma: watts divididos por mil dão kWh por hora, e kWh por hora multiplicado pela tarifa dá reais por hora.

Cenário 1 — split 9.000 on/off, quarto de 10 m². Etiqueta de 850 W, ventilador de 40 W, ciclando em 60% numa noite comum.

A média fica em 850 × 0,6 mais os 40 do ventilador, que dá 550 W. Isso é 0,55 kWh por hora, ou R$0,46 por hora.

A primeira hora é diferente. Com o quarto quente o compressor não descansa, então são os 890 W cheios: 0,89 kWh, ou R$0,75.

Uma noite de oito horas soma 0,89 mais sete vezes 0,55, ou seja, 4,74 kWh. Dá R$3,98 por noite, e cerca de 142 kWh e R$119 num mês de trinta noites.

Cenário 2 — split 12.000 inverter, mesmo quarto. Nominal de 1.050 W, máxima de 1.400 W, modulando entre 350 e 500 W depois que estabiliza.

A primeira hora dele é mais pesada que a do 9.000, porque ele tem mais capacidade e usa tudo pra esfriar rápido: cerca de 1,2 kWh, ou R$1,01.

Em regime ele cai pra perto de 0,42 kWh por hora. São R$0,35 por hora, contra R$0,46 do 9.000 on/off.

Repare no que aconteceu: o aparelho maior gasta menos por hora que o menor. A oito horas por noite, são 4,14 kWh, R$3,48, e uns 124 kWh no mês.

Isso não quer dizer que trocar compensa automaticamente, porque a diferença de preço na compra é grande. Essa conta de retorno está em se o inverter economiza mesmo.

Cenário 3 — split 18.000 numa sala com sol da tarde. Etiqueta de 1.750 W, ventilador de 60 W, quatro horas ligado entre as 14h e as 18h.

Sala grande, janela pegando sol e gente entrando e saindo: o compressor fica ligado uns 85% do tempo. A média sobe pra 1.550 W, ou 1,55 kWh por hora.

São R$1,30 por hora, e R$5,21 nas quatro horas. É quase o triplo do custo por hora do 12.000 inverter no quarto.

Agora o mesmo aparelho, na mesma sala, com a persiana fechada e sem sol direto. O ciclo cai pra 55%, a média vai pra 1.020 W, e a hora sai por R$0,86.

Mesmo equipamento, mesma tarifa, 34% de diferença no custo por hora. O que mudou foi só o calor que entrava pela janela.

Guarde isso, porque é a conclusão mais útil de todas. O custo por hora é uma característica do conjunto aparelho mais cômodo, não do aparelho sozinho.

Item 4 — como medir em casa, que é o único juiz do cálculo

Tudo acima é estimativa boa. Medição é fato. E medir custa uma hora de paciência.

O caminho mais simples é o medidor de tomada, aquele adaptador com visor que fica entre o plugue e a tomada. Custa entre R$50 e R$150 e mostra kWh acumulado.

Ele resolve pra aparelho que liga em tomada, quase sempre 127 V. Confira antes se a tensão e a corrente do medidor batem com as do split.

Só que muito split é 220 V ligado direto no disjuntor, sem plugue nenhum. Nesse caso o medidor de tomada não serve, e sobra o relógio de luz.

Antes de qualquer coisa: isso aqui é leitura de visor, com o lacre intocado. Não é pra abrir o medidor nem mexer no quadro pra fazer teste.

O primeiro método com o relógio é o do registro. Anote o número que aparece no visor, deixe o ar rodando uma hora, anote de novo e subtraia.

A diferença é o consumo daquela hora em kWh, com dois decimais. Um aparelho de meio quilowatt move o registro em 0,50 ou 0,55, que é perfeitamente legível.

O erro clássico desse teste é a geladeira. Todo mundo desliga a televisão e as luzes e esquece que a geladeira liga sozinha, puxando 100 a 150 W no meio da sua medição.

Some o freezer da área de serviço, o roteador, a bomba d’água e o carregador esquecido na tomada. Junto, isso já bagunça 20% do resultado.

Ou você desliga tudo isso durante a hora do teste, ou mede primeiro a casa sem o ar, uma hora, e subtrai depois. A segunda opção evita descongelar a geladeira.

O segundo método é contar piscadas, e é mais rápido. Medidor eletrônico traz impresso na frente uma constante, no formato “1000 imp/kWh”.

Com 1.000 impulsos por kWh, cada piscada do LED vale 1 Wh. Conte quantas piscam em 60 segundos e você tem watts-hora por minuto.

Dez piscadas em um minuto são 10 Wh por minuto, ou 600 W. Simples assim, e dá pra repetir cinco vezes ao longo da noite pra ver o compressor ciclando ao vivo.

Meça num dia representativo do seu uso, com a porta do quarto fechada e na temperatura que você usa de verdade. Medir a 24 graus e viver a 20 não vale nada.

Se o medido bater com o calculado dentro de uns 20%, o cálculo está bom e você pode confiar nele pro resto do ano.

O que fazer quando o número medido sai muito acima do calculado

Aqui é onde o checklist vira decisão. A diferença entre o esperado e o medido diz coisas diferentes conforme o tamanho dela.

Até 20% ou 30% acima. Quase sempre é a medição, não o aparelho. Refaça olhando pra geladeira, pro freezer e pra bomba d’água antes de suspeitar do split.

Também entra aqui o dia atípico. Uma tarde de 36 graus joga o consumo pra cima sem nada estar errado.

Perto do dobro. Isso é o compressor não conseguindo ciclar. O aparelho está ligado quase 100% do tempo, e aí a média encosta na potência da etiqueta.

A causa mais comum e mais barata é fluxo de ar entupido. Um filtro sujo obriga o aparelho a rodar mais tempo pra entregar o mesmo frio, e a condensadora abafada faz o mesmo pelo lado de fora.

Depois vem carga térmica: sol batendo na janela a tarde inteira, laje descoberta em cima, porta que fica aberta, mais gente no cômodo do que o normal.

Por último, aparelho pequeno demais pro cômodo. Um 9.000 numa sala de 20 m² nunca vai desligar o compressor, e o custo por hora dele vira o custo de um aparelho maior.

Acima da potência da etiqueta. Se a média medida em uma hora passa da potência nominal, não é uso: é defeito.

Nessa faixa entram compressor forçado por trocador de calor entupido, capacitor no fim da vida e tensão baixa chegando no aparelho por cabo subdimensionado.

Tensão baixa é a mais sorrateira. O motor puxa mais corrente pra entregar o mesmo trabalho, esquenta, e o consumo sobe sem que nada pareça quebrado.

Tem ainda o caso em que o cálculo está certo e a conta subiu mesmo assim. Antes de culpar o ar, compare kWh com kWh, nunca reais com reais.

Fatura tem reajuste anual da distribuidora, tem mudança de bandeira e tem mês com mais dias de leitura. Só o consumo em kWh compara mês com mês de forma limpa.

E existe o desfecho chato: tudo certo, número batendo, e o custo continua doendo. Aí não tem conserto técnico, tem escolha de quantas horas por noite você quer pagar.

Perguntas que aparecem sempre

Dá pra confiar no consumo que o aplicativo do ar-condicionado mostra?

Serve pra comparar dias entre si, não pra fechar conta. A maioria desses aparelhos não tem medidor de energia dentro.

O que o aplicativo faz é estimar a partir do tempo e da rotação do compressor, usando uma tabela do fabricante. Já vi essa estimativa errar de 15% a 30% pra menos.

A etiqueta do Inmetro mostra um consumo mensal bem menor. Quem está errado?

Ninguém. A etiqueta mede num ensaio padronizado, com número fixo de horas por dia e temperatura de laboratório dos dois lados do aparelho.

A sua casa tem sol, porta abrindo e telhado esquentando. Use a etiqueta pra escolher entre dois modelos na loja e a sua medição pra prever a fatura.

Quanto custa por hora um ventilador de teto, pra eu ter comparação?

Um ventilador de teto comum fica entre 60 e 130 W conforme a velocidade. Isso dá de 0,06 a 0,13 kWh por hora.

Na tarifa de R$0,84 do exemplo, são 5 a 11 centavos por hora. O ar-condicionado do cenário 2 custa umas quatro vezes isso.

Wagner Diniz
Wagner Diniz

Passou seis anos instalando e dando manutenção em split, primeiro como ajudante e depois por conta própria. Hoje não presta mais serviço, mas continua respondendo as mesmas perguntas de sempre — e resolveu escrever as respostas com o número e a medida que ninguém dá.