Por que o ar-condicionado não gela como gelava no primeiro verão

O aparelho liga, o ar sai frio, nada apita e nada vaza. Só que o quarto que ficava bom em vinte minutos agora leva uma hora e meia. Onde foi parar o resto?

Essa é a reclamação que eu mais atendi em split com três, quatro anos de uso. Quase nunca era pane. Era capacidade escorrendo aos poucos, um pedaço por ano.

E é justamente por escorrer devagar que ninguém percebe. Você vai empurrando o controle de 23 pra 21, depois pra 19, e acha que o calor é que está pior este ano.

Tem um jeito de sair do achismo em vinte minutos, com um termômetro de cozinha. Vou chegar nele. Antes, o que costuma estar acontecendo por trás.

O que “não gela mais” quer dizer quando o aparelho continua ligando e soprando frio

Perda de capacidade quase nunca aparece como falta de frio na saída. O ar que bate na sua mão continua frio. O que mudou é quanto calor ele consegue tirar do cômodo por hora.

Os sinais que eu usava pra confirmar isso na primeira visita eram sempre os mesmos quatro.

  • O tempo até chegar na temperatura dobrou. Antes eram 20 ou 30 minutos num quarto; agora passa de uma hora.
  • O compressor quase não descansa. Antes ele parava por uns minutos e voltava; agora fica rodando direto.
  • Você precisou baixar o setpoint pra sentir o mesmo conforto de antes.
  • Em dia de 35 °C ele desiste. Segura bem de manhã, e das 14h às 18h não vence.

O quarto sinal é o mais revelador. Aparelho perdendo capacidade não falha o dia inteiro: falha só quando a carga aperta.

É a mesma lógica de um carro com o filtro de ar sujo. No plano ele anda; na subida com o carro cheio é que aparece.

Um detalhe ajuda a separar as coisas. Se o ar de saída ficou menos frio ao toque e o sopro continua forte, o problema tende a ser troca de calor.

Se o ar segue gelado mas sai fraquinho, o problema é fluxo. São causas diferentes e conserto diferente.

Por que a perda vem devagar e ninguém aponta o dia em que começou

Um split sai de fábrica com folga. Ele foi projetado pra entregar a capacidade nominal em condição de teste, com serpentina limpa e ar circulando livre dos dois lados.

No primeiro verão, essa folga toda está lá. Você sente o aparelho sobrando. A partir dali, cada coisinha come um pedaço.

Poeira que se acumula nas aletas come um pedaço. Condensadora que ficou mais fechada come outro. Ventilador que perdeu rotação come mais um.

Nenhum desses pedaços sozinho é grande o bastante pra você notar num dia. Somados ao longo de três verões, dão a diferença entre gelar rápido e não vencer mais.

Pela minha conta de campo, um split de quarto usado umas 8 horas por dia começa a dar sinal claro no segundo ou terceiro verão. Isso sem nenhuma manutenção além de lavar o filtro.

Em cozinha, em quarto com pet, ou em condensadora virada pra rua de terra, esse prazo cai pela metade fácil.

Onde exatamente a capacidade some dentro do aparelho

São quatro lugares, e eles aparecem quase sempre nessa ordem de frequência.

A condensadora sufocada. Essa é a campeã. A unidade de fora precisa jogar calor no ambiente, e pra isso precisa de ar entrando pelas costas e saindo pela frente.

Como regra de bolso eu trabalhava com uns 30 cm livres nas laterais e nas costas, e uns 50 cm na frente da hélice. Muita instalação de apartamento não tem nem isso.

Aí vem o resto: o vaso de samambaia que alguém pôs em cima, a churrasqueira encostada, a tela de proteção de gato entupida de poeira, a prateleira improvisada na área de serviço.

Quando o ar quente que saiu volta a ser sugado, o aparelho fica esquentando o próprio jantar. A pressão sobe, o compressor trabalha mais e entrega menos frio lá dentro.

O biofilme na serpentina de dentro. Não é a poeira solta que o filtro pega. É uma película pegajosa, meio acinzentada, que gruda entre as aletas de alumínio da evaporadora.

Ela se forma porque a serpentina vive molhada de condensado enquanto o aparelho roda. A poeira fina que passou do filtro gruda ali e vira massa.

Essa camada faz duas maldades ao mesmo tempo. Ela isola o alumínio do ar, atrapalhando a troca, e ainda estreita o caminho por onde o ar passa.

Dá pra ver com uma lanterna. Se você olha entre as aletas e não enxerga a luz do outro lado, ou se elas estão escuras e ásperas em vez de prateadas, é biofilme.

O ventilador que perdeu rotação. Na evaporadora, a turbina cilíndrica acumula uma crosta em cada pazinha, e a crosta muda o formato da pá.

Turbina engordurada empurra menos ar com o mesmo motor. Na condensadora, a hélice suja e o mancal seco fazem o mesmo estrago.

Teste barato: com o aparelho na velocidade máxima, ponha uma folha de papel A4 na frente da saída. Ela deve ficar erguida com firmeza, não tremendo de leve.

O capacitor cansado. Esse é o que quase ninguém considera, e é o que mais me surpreendeu ao longo dos anos.

O capacitor é aquele cilindro que dá o empurrão de partida e ajuda a segurar o motor rodando. Ele não morre de uma vez: perde capacitância aos poucos.

Um capacitor marcado pra 30 µF que já entrega 18 ou 20 µF ainda liga o compressor. Só que o motor gira com menos torque e o aparelho passa a render menos.

O sinal típico é gelar bem de manhã e sumir de tarde, junto com um zumbido diferente na partida. Medir isso é serviço de técnico, e explico logo abaixo por quê.

O cômodo mudou de carga térmica sem você mudar o aparelho

Aqui está o pedaço que quase nunca entra na conversa. Em umas duas de cada dez visitas, era a explicação inteira.

O aparelho não perdeu nada. O quarto é que ficou mais quente do que era quando ele foi dimensionado.

Faça essa lista de cabeça: o que existe hoje nesse cômodo que não existia no primeiro verão?

  • Uma pessoa a mais dormindo ali. Um adulto em repouso solta na faixa de 100 W de calor, o tempo todo.
  • Um computador que virou home office. Máquina de trabalho fica entre 100 e 200 W; PC de jogo com placa dedicada passa fácil de 300 W sob uso.
  • Uma televisão maior. Trocar uma de 40 por uma de 65 polegadas costuma dobrar o consumo, e tudo isso vira calor no quarto.
  • A cortina blackout que saiu na reforma e virou um voil bonito.
  • O prédio ou a árvore que sombreava a janela da tarde e não sombreia mais.

Some: duas pessoas, um PC de trabalho e uma TV dão perto de 450 W constantes. Isso é mais ou menos 1.500 BTU/h que o aparelho precisa vencer antes de começar a resfriar a parede.

Num 9.000 BTUs, esse acréscimo é quase 17% da capacidade nominal, comido antes do jogo começar. É diferença suficiente pra tirar o conforto de um quarto que já estava no limite.

A janela pesa ainda mais que os equipamentos. Sol direto em vidro comum entrega centenas de watts por metro quadrado, e por isso cortina e película mudam a carga térmica do quarto mais do que parece.

Vale conferir também se o aparelho já nasceu justo. Se ele foi comprado pelo preço e não pelo cálculo, o primeiro verão pode ter sido o único em que existiu folga.

Medir o delta T em vinte minutos, com termômetro de cozinha

Delta T é a diferença entre a temperatura do ar que entra na evaporadora e a do ar que sai dela. É a medida que tira você do achismo.

Antes do passo a passo, o aviso: isso tudo se faz com o aparelho fechado, sem abrir tampa nem tocar em parte elétrica. Se der vontade de abrir a carcaça, desligue o disjuntor e chame quem entende.

  1. Arrume um termômetro digital de espeto, desses de cozinha, que custam na faixa de R$25 a R$60. O do celular não serve, e o do próprio controle também não.
  2. Feche o quarto, porta e janela, e ligue o aparelho no modo refrigerar, com o setpoint no mínimo e o ventilador na velocidade máxima. Nada de automático.
  3. Espere de 15 a 20 minutos. Medir antes disso dá número bonito e falso, porque a serpentina ainda está encharcada de frio acumulado.
  4. Meça o ar de entrada encostando a ponta do termômetro na grade de retorno, aquela parte de cima da evaporadora que suga o ar. Anote quando o número parar de cair.
  5. Meça o ar de saída pondo a ponta na frente das aletas de sopro, mais ou menos no meio da largura do aparelho. Anote de novo.
  6. Subtraia. Entrada menos saída é o seu delta T.

A faixa saudável, num split doméstico rodando em regime, fica entre 8 e 12 °C. Se deu 10, o aparelho está trocando calor como deveria.

De 6 a 8 °C é zona de atenção: já perdeu alguma coisa, provavelmente sujeira dos dois lados. Abaixo de 6 °C tem problema pra resolver, e não é impressão sua.

Agora o detalhe que quase todo tutorial esquece: delta T alto demais também é sintoma. Acima de uns 14 °C, o mais provável é que esteja passando pouco ar pela serpentina.

Ar que passa devagar sai mais gelado, e o número engana. O volume caiu, e o cômodo continua não gelando. Turbina suja e filtro entupido dão exatamente esse resultado.

Por isso o teste da folha de papel vale a pena junto com o termômetro. Um mede a qualidade do ar frio; o outro mede a quantidade.

Repita a medição em dois momentos: às dez da manhã e às três da tarde. Se de manhã dá 10 °C e à tarde cai pra 5 °C, você achou um problema do lado de fora.

Tem mais um número fácil de tirar, e ele é o mais direto pra recirculação. Meça o ar que a condensadora suga pelas costas e compare com o ar na sombra, dois metros ao lado.

Se a diferença passar de uns 3 a 5 °C, ela está respirando o próprio ar quente. Resolva isso antes de gastar com peça: nenhuma peça nova vence um ar de entrada superaquecido.

Os erros que fazem a perda parecer culpa do gás

O primeiro e maior: mandar completar gás sem medir nada. Sistema de split é selado, e o gás não se gasta com o uso do jeito que gasolina se gasta.

Se está faltando, é porque vazou em algum lugar. Completar sem achar o furo é jogar dinheiro fora duas vezes por ano, e o assunto tem tamanho próprio em quando o gás do ar-condicionado realmente acaba.

O segundo é lavar a condensadora com lavadora de alta pressão. As aletas de alumínio são finíssimas e dobram com o jato, fechando a passagem do ar.

O aparelho fica limpo por fora e pior por dentro. Já vi serpentina virar uma parede depois de uma lavagem dessas, com o ar quente sem por onde sair.

O terceiro é baixar o setpoint pra 16 °C achando que apressa. O compressor de um on/off tem uma capacidade só: ele liga naquela potência e pronto.

Baixar o número não faz o frio chegar mais rápido. Faz o aparelho parar mais tarde, gastando mais luz pelo mesmo tempo de resfriamento.

O quarto é lavar só o filtro e achar que fez manutenção. O filtro protege a serpentina, mas ele não limpa nada do que já passou por ele.

Nesse ponto vale checar sua rotina, porque intervalo errado de limpeza do filtro é o que deixa o biofilme se formar em primeiro lugar.

O quinto é tratar o problema como se ele tivesse aparecido agora. Se o aparelho nunca gelou direito desde o começo, não é degradação.

Nesse caso a origem costuma ser a instalação, e vários desses defeitos só dão as caras depois, como conto em 4 erros de instalação que só aparecem no segundo verão.

O que dá pra resolver sozinho e o que já é serviço de técnico

A parte sua é maior do que parece, e é a que resolve a maioria dos casos de perda gradual.

Desobstruir a condensadora não custa nada além de meia hora de trabalho. Tirar vaso, afastar móvel, podar o arbusto, remover a tela que virou feltro de poeira.

Limpar o filtro na frequência certa é seu. Conferir o fluxo com a folha de papel é seu. Medir o delta T é seu, e refazer a medida depois de qualquer serviço também.

Agora a fronteira, e ela é bem nítida.

  • Capacitor. Ele guarda carga elétrica mesmo com o disjuntor desligado, e capacitor de compressor guarda o suficiente pra machucar. Medir e trocar é de técnico.
  • Higienização química da serpentina. Exige produto próprio, bandeja protegida e água correndo pro dreno. Feito errado, entope o dreno e você troca um problema por outro.
  • Qualquer coisa envolvendo gás. Manômetro, solda, carga e recolhimento são serviço de profissional. Soltar refrigerante no ar, além de tudo, é ilegal.
  • Condensadora em fachada ou sacada alta. Isso é trabalho em altura, com cadeirinha e cinto. Não é pra fazer pendurado na janela por economia.

Sobre preço, com a ressalva de sempre de que varia demais por região e pelo acesso: higienização completa de um split de parede costumava andar entre R$150 e R$350 por unidade.

Capacitor é peça barata, na faixa de R$40 a R$120, e o que pesa no orçamento é a visita, não a peça. Serviço em condensadora que precisa de rapel muda de patamar e é orçado à parte.

Uma última coisa que vale mais que qualquer serviço: anote o delta T do seu aparelho hoje, num papel colado atrás do controle. Anote de novo daqui a um ano.

Quando a dúvida voltar no verão que vem, você não vai depender da memória. Vai ter dois números, e número não discute.

Wagner Diniz
Wagner Diniz

Passou seis anos instalando e dando manutenção em split, primeiro como ajudante e depois por conta própria. Hoje não presta mais serviço, mas continua respondendo as mesmas perguntas de sempre — e resolveu escrever as respostas com o número e a medida que ninguém dá.