Atendi um chamado em novembro que começou com a frase que eu mais ouvi na vida: “ele funcionou perfeitamente o verão inteiro no ano passado”.
Era um split de 12.000 instalado havia catorze meses, num quarto de casal. No primeiro verão gelou o quarto em quinze minutos; no segundo, demorava uma hora e não fechava.
O dono estava convencido de que era defeito de fábrica, e queria acionar a garantia. Não era defeito de fábrica.
Era um cone de conexão mal feito na instalação, perdendo gás devagar. Levou catorze meses pra o sintoma aparecer, e a garantia de serviço tinha vencido em noventa dias.
Esse atraso é a característica que define os erros deste texto. Nenhum deles dá sintoma no dia da instalação, e é exatamente por isso que passam despercebidos na hora em que ainda dava pra cobrar.
São quatro, e todos podem ser conferidos por você, sem ferramenta, nas primeiras semanas de uso.
Por que o segundo verão é o momento em que tudo aparece
Não é coincidência de calendário. Tem uma lógica atrás disso, e ela é a mesma nos quatro casos.
Instalação recém-feita tem folga. Conexão apertada segura mesmo com o cone imperfeito, isolamento novo ainda veda, bucha nova ainda está firme, dreno ainda está limpo.
O que corrói essa folga é o ciclo. O aparelho esquenta e esfria dezenas de vezes por dia, e cada ciclo dilata e contrai as peças.
Some a vibração do compressor, que trabalha centenas de horas por temporada, e o sol batendo no isolamento e na fachada.
Em uma temporada, isso não é suficiente pra vencer a folga. Em duas, costuma ser.
Some ainda a inércia da memória. A queda é gradual, e você só percebe quando compara com a lembrança do primeiro verão, que é justamente quando o prazo de reclamar já passou.
A boa notícia: os quatro erros são detectáveis muito antes disso, e a checagem leva quinze minutos.
Os erros que aparecem logo, e por que estes quatro não
Vale contrastar, porque ajuda a entender o recorte. Instalação malfeita também produz problemas imediatos, e esses ninguém precisa procurar.
Aparelho instalado torto pinga água dentro de casa na primeira semana. Furo na parede sem caimento deixa entrar chuva no primeiro temporal.
Evaporadora posicionada na parede errada joga vento na cama na primeira noite, e a pessoa reclama no dia seguinte.
Disjuntor subdimensionado desarma no primeiro dia de calor, com o chuveiro ligado junto. Cabo fino demais esquenta a tomada em poucas semanas.
Todos esses são chatos, mas são justos: dão sintoma enquanto o instalador ainda está na sua agenda de contatos recentes, e enquanto a garantia de serviço está viva.
Os quatro erros deste texto são de outra natureza. Eles têm em comum o fato de a falha ser progressiva e o sintoma ser indireto.
Progressiva porque a folga vai sendo consumida ao longo de centenas de horas de funcionamento, e não de uma vez.
Indireta porque, quando o sintoma chega, ele se parece com desgaste natural do aparelho — “está ficando velho”, “precisa de gás”, “precisa de limpeza”.
É essa confusão que faz o dono pagar por uma recarga de gás em vez de acionar quem fez o cone errado. E é ela que este texto tenta desfazer.
Erro 1: o cone de conexão mal executado
É o campeão absoluto, e é responsável pela maior parte dos aparelhos que “perderam o gás” sem nunca ter levado uma pancada.
Nas pontas dos tubos de cobre, o instalador faz um cone — o flare — que é apertado contra o bocal da unidade por uma porca. É esse cone que veda o sistema.
Fazer bem exige corte reto, rebarba removida, cone com a abertura correta e aperto na medida certa. Errar em qualquer uma dessas etapas deixa uma vedação que funciona hoje e afrouxa depois.
Aperto demais também é erro, e é o mais comum entre os apressados: cobre é mole, e porca apertada com força trinca o cone por dentro sem aparecer nada por fora.
Como conferir: vá até a condensadora, com o aparelho desligado, e olhe as duas porcas de conexão contra a luz.
Procure mancha oleosa em volta delas. Óleo de refrigeração sai junto com o gás, gruda poeira, e forma um anel escuro em ponto único enquanto o resto do tubo está limpo.
Quando conferir: na primeira semana, no primeiro mês e no sexto mês. Se aparecer óleo, você tem prova visual e ainda está dentro do prazo de reclamar.
O roteiro completo de diagnóstico de carga está em quando o gás do ar-condicionado realmente acaba, e o item da mancha de óleo é o mais confiável de todos.
Erro 2: o vácuo que não foi feito
Esse é invisível, não deixa marca nenhuma e é impossível de conferir depois. Por isso ele precisa ser observado no dia.
Antes de liberar o gás, a tubulação nova precisa ser esvaziada com bomba de vácuo. Ela tira o ar e, principalmente, a umidade de dentro do circuito.
Umidade dentro de um sistema de refrigeração é veneno lento. Ela reage com o óleo, forma ácido e ataca o verniz do motor do compressor por dentro.
O atalho que substitui isso se chama purga: em vez de puxar vácuo, o instalador libera um pouco de gás pra empurrar o ar pra fora. É rápido, parece funcionar e deixa umidade dentro.
O sintoma não aparece em um verão. Aparece em dois, três ou quatro, na forma de válvula travando, de perda de rendimento ou de compressor que morre antes da hora.
Como conferir: só no dia, olhando. A bomba de vácuo é uma máquina do tamanho de um galão, que fica ligada e fazendo barulho por vários minutos, com um manômetro acoplado.
Se em toda a instalação a única coisa que apareceu foi um jogo de mangueiras e uma chave, não houve vácuo.
Quando conferir: no dia, e essa é a única chance. Vale avisar antes, no orçamento, que você quer que o vácuo seja feito — a frase muda o comportamento de quem ia pular a etapa.
Dois detalhes ajudam a distinguir vácuo de teatro. O primeiro é o tempo: a bomba fica ligada por vários minutos, não por trinta segundos, e o tempo cresce com o comprimento da tubulação.
O segundo é o que acontece depois de desligar a bomba. O procedimento correto inclui fechar o registro e observar se a agulha do manômetro fica parada.
Se ela sobe sozinha, entrou ar por algum ponto, e existe vazamento antes mesmo de o gás ser liberado. É a hora mais barata de descobrir isso.
Quem trabalha bem faz essa espera na sua frente e comenta o resultado. Quem pula a etapa costuma liberar o gás em seguida, sem pausa nenhuma.
Vale dizer que existe um caso legítimo em que o vácuo é curto: tubulação muito pequena, em instalação de poucos metros, com bomba boa. Curto, não inexistente.
Erro 3: o dreno sem caimento
Esse é o mais barato de todos pra consertar e o que mais estraga parede antes de ser descoberto.
A mangueira do dreno precisa descer o tempo todo, do aparelho até a saída. Um centímetro por metro corrido já basta, e é pouco.
O que acontece na pressa é a mangueira ficar com uma barriga — desce, sobe um pouco, desce de novo. Água fica parada na curva.
No primeiro verão isso não incomoda: a mangueira está limpa e a água passa. Com o tempo, a água parada na curva vira depósito, o depósito vira tampão, e o dreno entope.
Aí a bandeja transborda e a água escorre pela parede, atrás do aparelho, onde ninguém vê até a pintura bolhar.
Como conferir: acompanhe o percurso visível da mangueira e procure qualquer trecho que suba. Se ela é aparente, isso se resolve na primeira olhada.
Faça também o teste do meio litro: despeje água devagar na bandeja da evaporadora e veja se sai num fluxo contínuo lá fora, em poucos segundos.
Quando conferir: no primeiro mês e depois uma vez por ano. E se já estiver entupido, o caminho pra resolver sem quebrar nada está em dreno entupido e o caminho pra desentupir.
Tem uma variação desse erro que é ainda mais escondida: a mangueira que atravessa a parede junto com o cobre e faz uma curva pra cima logo na saída, pra “ficar bonita” ao lado da tubulação.
Esteticamente fica melhor mesmo. Funcionalmente, você criou um sifão invertido dentro da parede, no ponto exato em que ninguém vai conseguir olhar depois.
Outra variação é a mangueira encaixada no bocal da bandeja sem abraçadeira. Ela segura por atrito no começo, e com o tempo o peso da água e o calor vão soltando.
Quando solta, a água passa a cair dentro da parede em vez de ir pro dreno. O sintoma é mancha de umidade sem pingo visível, e ele demora meses pra aparecer.
Erro 4: a fixação improvisada da condensadora
O quarto erro é estrutural, e é o que mais gera briga de vizinho antes de gerar defeito.
A condensadora vibra por natureza. Ela sai de fábrica pra ser apoiada em coxins de borracha, num suporte dimensionado pro peso dela, fixado em base firme.
Os improvisos são três, e eu vi os três muitas vezes. Coxim que não foi instalado, porque “não veio na caixa”. Suporte subdimensionado, escolhido por preço. E bucha errada pro tipo de parede.
No primeiro ano, tudo segura. A vibração vai afrouxando a fixação, a bucha vai abrindo o furo, e o conjunto começa a se mexer alguns milímetros.
A partir daí a coisa acelera: mais folga significa mais vibração, mais vibração significa mais folga. E a vibração transmitida à estrutura ainda afrouxa as conexões de cobre, o que nos devolve ao erro 1.
Como conferir: com o aparelho ligado, encoste a mão no suporte e na parede em volta. Vibração perceptível na alvenaria é sinal de coxim ausente ou achatado.
Olhe também se a unidade está nivelada e se todos os parafusos do suporte estão presentes — faltar parafuso é mais comum do que deveria.
Vale olhar o coxim de perto. Ele é uma borracha ou um bloco de material elástico entre o pé da condensadora e o suporte, e some com facilidade em instalação apressada.
Coxim achatado, ressecado ou rachado não amortece mais nada, e ele é peça de reposição barata. Trocar os quatro é serviço rápido e resolve boa parte do zumbido.
Outro ponto do mesmo erro: a condensadora precisa estar minimamente nivelada, apoiada nos quatro pés. Apoiada em três, ela balança e força a estrutura no ponto que ficou solto.
E confira a ferrugem. Suporte galvanizado dura anos; suporte de cantoneira pintada em área externa começa a enferrujar no segundo ano, e ferrugem em suporte de condensadora é assunto sério.
Quando conferir: no primeiro mês e a cada seis meses. A escolha entre parede e laje, e o que cada uma exige, está em suporte da condensadora na parede ou na laje.
O que fazer com cada resultado, e em que prazo
Achar o problema só serve se você souber a quem cobrar, e o prazo importa mais que o argumento.
Serviço de instalação tem garantia legal, e ela é contada a partir da entrega. Além dela, muito instalador oferece garantia própria, normalmente de alguns meses a um ano.
O aparelho tem outra garantia, a do fabricante, e ela costuma ser maior. Só que defeito causado por instalação não é coberto por ela — e é justamente aí que a pessoa fica sem ninguém pra acionar.
Por isso a regra prática: faça a checagem dos quatro itens nos primeiros trinta dias, e de novo antes de completar seis meses. Dentro desse prazo, tudo é conversa fácil.
Se achar mancha de óleo, não deixe outro profissional mexer antes de chamar quem instalou. Serviço de terceiro costuma ser usado como argumento pra negar a garantia.
Se o vácuo não foi feito, o que dá pra fazer depois é limitado: não existe como “desfazer” umidade que entrou. O que se faz é recolher, secar o sistema com vácuo prolongado e recarregar.
Se o dreno não tem caimento, o conserto é barato e rápido — refazer o percurso da mangueira. Não aceite a solução de só desentupir, porque ela volta.
Se a fixação está frouxa, troca de coxim e reaperto resolvem a maioria dos casos, e é serviço de menos de uma hora.
Como contratar de um jeito que os quatro nem aconteçam
Prevenir aqui é mais fácil do que consertar, e não depende de você entender de refrigeração. Depende de três coisas ditas antes de fechar.
A primeira é pedir o serviço item a item no orçamento, e não como um valor fechado de “instalação”. Comprimento de tubulação, vácuo, teste, carga adicional se houver, coxins e suporte.
Isso não é desconfiança: é a forma de comparar dois orçamentos que chegaram com valores diferentes. Sem detalhamento, você está comparando números que não medem a mesma coisa.
A segunda é perguntar sobre o vácuo, com essas palavras. “O serviço inclui vácuo com bomba antes de liberar o gás?” A resposta, e principalmente a naturalidade dela, diz muito.
A terceira é combinar a garantia por escrito, com prazo. Instalador que trabalha bem costuma dar garantia própria sem hesitar, porque sabe que não vai ser chamado de volta.
Junto disso, três sinais que eu usaria pra escolher entre dois orçamentos parecidos.
- Ele foi ver o local antes de dar o preço? Orçamento fechado por telefone, sem ver o percurso, é preço que vai mudar no dia — ou serviço que vai ser adaptado pra caber no valor.
- Ele perguntou o modelo do aparelho? O limite de tubulação e a carga por metro são do modelo. Quem não pergunta não vai consultar.
- Ele mencionou a parte elétrica? Bom instalador avisa que o circuito é assunto de eletricista, em vez de pendurar o aparelho na tomada mais próxima.
Uma coisa que vale dizer, em favor de quem faz esse trabalho: instalação bem feita leva de três a cinco horas e exige equipamento caro.
Serviço de uma hora e meia, por um preço bem abaixo dos outros orçamentos, está economizando em algum lugar.
Quase sempre o lugar é o vácuo, porque é a única etapa que não deixa rastro nenhum. E é justamente a que cobra o preço no terceiro ou quarto ano.
A checagem de quinze minutos que eu faria em todo aparelho novo
Se você só for fazer uma coisa depois de ler isso, faça essa lista uma vez, no primeiro mês.
- Olhar as duas porcas de conexão da condensadora, contra a luz, procurando anel oleoso.
- Encostar a mão no suporte e na parede com o aparelho ligado, sentindo vibração.
- Conferir se todos os parafusos do suporte estão no lugar e se a unidade está nivelada.
- Seguir a mangueira do dreno procurando trecho que suba, e fazer o teste do meio litro.
- Verificar se todo o cobre visível está isolado, sem trecho nu, inclusive junto à condensadora.
- Cronometrar quanto tempo o quarto leva pra ficar confortável, e anotar esse número num papel.
O último item é o que mais vale a longo prazo. Ele é a única forma de provar, no segundo verão, que alguma coisa mudou.
Guarde essa anotação junto com a nota fiscal e o contato de quem instalou. Vale mais que qualquer termo de garantia, porque é a única medida que você tem do aparelho funcionando bem.