Eu ouvi essa pergunta em quase toda instalação que fiz. Sempre no mesmo tom, como quem já sabe a resposta: “mas deixar ligado direto não gasta menos do que ficar ligando e desligando?”
Por muito tempo eu respondia de cabeça, com a explicação que aprendi com o instalador mais velho que me ensinou. Até o dia em que comprei um medidor de tomada e resolvi olhar o número.
O número desmontou metade do que eu falava. Não é que ligar e desligar gaste mais, é que existe um ponto de virada, e ele fica em minutos, não em horas.
Abaixo vai o teste que eu faço pra achar esse ponto em qualquer casa, e o que dá quando você faz a conta em reais.
De onde saiu a ideia de que ligar e desligar gasta mais
Saiu de um fato verdadeiro mal interpretado: a corrente de partida do compressor.
Quando o compressor arranca, ele puxa de 4 a 6 vezes a corrente nominal. Num 12.000 isso pode significar um pico de 25 a 30 A onde o normal seriam 5 ou 6.
O pico existe mesmo. Só que ele dura menos de um segundo, e o relógio de luz cobra energia, não corrente de pico.
Cinco vezes a potência por um segundo equivale a cinco segundos de funcionamento normal. Em kWh isso dá 0,002. Não chega a um centavo por partida.
O que a partida realmente cobra é vida útil do compressor, não dinheiro na conta. São coisas diferentes, e a confusão entre as duas é a raiz do mito.
A segunda parte do mito é achar que o quarto esquenta sem limite enquanto o ar está desligado. Ele não esquenta: para quando chega na temperatura de fora.
Isso quer dizer que o custo de esfriar de novo tem teto. Ficar fora três horas ou oito horas dá quase o mesmo resfriamento inicial no fim do dia.
Quem deixa ligado direto paga por todas essas horas. Quem desliga paga uma vez só, e só quando volta.
O que o inverter muda nessa conta
Muda o custo de manter, não o custo de partir. E é aí que a pergunta deixa de ter resposta única.
Um split convencional só sabe ligar no máximo ou desligar. Com o quarto já frio, ele fica cortando e voltando, e a média fica em torno de 50% a 60% da potência de placa.
Um inverter reduz a rotação do compressor e segura a temperatura em marcha lenta. Um 12.000 inverter puxa de 700 a 1.100 W em regime, longe dos 1.500 que a etiqueta sugere.
Só que todo aparelho paga o pedágio do resfriamento inicial. Esfriar um quarto de 12 m² que ficou fechado a tarde inteira leva de 15 a 25 minutos com o compressor no talo.
Esse pedágio é a única coisa que você perde ao desligar. E ele é medível, o que significa que dá pra saber, com número, se compensa desligar antes de sair.
Os seis passos pra achar o ponto de virada da sua casa
O teste leva quatro dias e não precisa de ferramenta cara. Um medidor de tomada custa entre R$60 e R$150 e serve pra medir a casa inteira depois.
Se o seu ar é 220 V com plugue de três pinos, confira se o medidor aceita a tensão e a corrente antes de plugar. Aparelho ligado direto no disjuntor, sem tomada, não dá pra medir assim.
No fim do teste você vai ter três números anotados, e são só esses três que importam:
- quantos kWh o aparelho consome em uma hora com o quarto já frio;
- quantos kWh ele consome pra esfriar o quarto do zero;
- quanto você paga por kWh na fatura, com impostos e bandeira.
1. Descubra quanto o seu aparelho puxa em regime
Ligue o ar num dia comum, espere o quarto ficar frio e deixe rodando uma hora com a porta fechada. Anote o consumo em kWh que o medidor mostrar.
Sem medidor dá pra usar o relógio de luz. Desligue todo o resto da casa, olhe o LED que pisca no medidor da concessionária e conte os piscos em 60 segundos.
2. Meça o custo do resfriamento inicial
No dia seguinte, deixe o quarto fechado e sem ar das duas às cinco da tarde. Depois zere o medidor, ligue o aparelho e anote quanto ele consumiu até o compressor reduzir pela primeira vez.
Num 12.000 inverter esse número costuma ficar entre 0,35 e 0,55 kWh. É o preço fixo de entrar num quarto quente, e ele não muda se você ficar fora duas ou seis horas.
3. Divida um número pelo outro
Pegue o consumo do resfriamento inicial e divida pelo consumo de uma hora em regime. O resultado é o seu ponto de virada, em horas.
Exemplo real de um quarto que medi: 0,45 kWh de resfriamento dividido por 0,75 kWh por hora dá 0,6 hora, ou 36 minutos. Ausência menor que isso, deixar ligado empata. Maior, desligar ganha.
4. Repita a medida no dia mais quente que aparecer
O ponto de virada anda conforme o calor. Num dia de 36 graus o regime sobe e o resfriamento inicial demora mais, e os dois lados da divisão mudam juntos.
Quarto embaixo de laje descoberta reaquece rápido e empurra o ponto de virada pra cima, às vezes pra perto de uma hora. Quarto de meio de prédio faz o contrário.
5. Converta em dinheiro antes de mudar de hábito
Multiplique os kWh pelo valor que aparece na sua fatura, que costuma ficar entre R$0,70 e R$1,00 com impostos e bandeira, dependendo da distribuidora.
Oito horas seguidas a 0,8 kWh por hora dão 6,4 kWh, algo entre R$4,50 e R$6,40 por noite. Cortar quatro horas dessas oito economiza cerca de 2,7 kWh, já descontado o resfriamento de volta.
6. Use o timer em vez da força de vontade
Programar o desligamento pra 20 ou 30 minutos antes de você sair do quarto é onde a economia fica de graça. O ambiente segura o frio nesse intervalo e ninguém percebe.
O mesmo vale pra madrugada, quando a temperatura externa cai e a carga térmica do quarto despenca. Vale mais mexer no horário do que no ajuste de temperatura.
O número que costuma sair no fim
Nas casas onde medi, o ponto de virada caiu entre 30 e 50 minutos, tanto em inverter quanto em convencional.
Isso significa uma coisa prática: saiu do quarto por meia hora, deixa ligado. Vai ficar fora uma hora ou mais, desliga sem medo, mesmo que o quarto esteja fervendo na volta.
Deixar ligado das oito da manhã às seis da tarde numa casa vazia nunca faz sentido, com nenhuma tecnologia de compressor. São dez horas pagas pra evitar 25 minutos de resfriamento.
A dúvida honesta que sobra é o meio-termo: sair por 40 minutos e voltar. Nessa faixa a diferença é de centavos, e você pode decidir pelo conforto, não pela conta.
Se quiser fechar o mês inteiro em reais, o caminho é multiplicar as horas reais de uso pelo consumo medido no passo 1. É a mesma conta que uso pra estimar quanto custa por hora deixar o ar-condicionado ligado.
Perguntas que aparecem sempre
Ligar e desligar várias vezes estraga o compressor?
Estraga se for exagerado. A referência que os fabricantes usam nos manuais é de no máximo seis partidas por hora, e a maioria dos aparelhos tem um atraso de 3 minutos de proteção.
Desligar duas ou três vezes por dia não chega perto disso. Um split convencional bem dimensionado já liga e desliga sozinho umas 20 vezes por dia, e ninguém acha ruim.
Deixar em 25 graus o dia todo gasta menos que desligar?
Não. Manter 25 graus num quarto vazio ainda custa entre 0,4 e 0,7 kWh por hora, porque o calor continua entrando pela janela e pelo teto.
Subir a temperatura reduz o consumo, mas cada grau costuma valer de 5% a 8%. Desligar reduz 100%, e é a única jogada que zera a conta daquelas horas.
O aparelho gasta mais pra esfriar um quarto que ficou fechado?
Gasta, e é justamente esse gasto que você mediu no passo 2. Quarto fechado a tarde inteira acumula calor nas paredes e nos móveis, não só no ar.
Um truque que funciona: deixe a janela aberta até meia hora antes de ligar o ar, se o ar de fora já estiver mais fresco que o de dentro. Fechou a janela, ligou o aparelho.