Um cliente me pediu pra pôr a condensadora no fundo do quintal, atrás da churrasqueira, pra não ver o aparelho da área de lazer. Eram uns dezoito metros de percurso real.
Era tecnicamente possível naquele modelo, e mesmo assim eu recomendei não fazer. Não pelo limite do manual: pelo que aqueles dezoito metros iam custar em dinheiro, em gás e em desempenho.
Ele acabou pondo na lateral, a seis metros, com uma treliça de madeira na frente. Ficou escondido do mesmo jeito e custou menos da metade.
Essa é a conversa que quase nunca acontece antes da instalação, e é uma das que mais economizam. A distância entre as duas unidades não é detalhe de execução: ela mexe no preço, no consumo e na vida do compressor.
O que vem abaixo é a sequência que eu seguia pra decidir onde a condensadora podia ficar, com os números que importam em cada passo.
Por que existe um limite, afinal
Entre as duas unidades passam dois tubos de cobre, e dentro deles circula o refrigerante. Quanto mais longo o caminho, três coisas pioram ao mesmo tempo.
A primeira é a perda de carga. O gás perde pressão ao longo do percurso, e o compressor precisa trabalhar mais pra vencer isso. Trabalho a mais aparece na conta de luz.
A segunda é a troca de calor indesejada. Tubo longo, mesmo isolado, troca calor com o ambiente ao longo do caminho, e parte do frio que você pagou pra produzir se perde antes de chegar.
A terceira é a mais séria e a menos conhecida: o retorno do óleo. O compressor tem óleo, e uma parte dele circula junto com o refrigerante pelo sistema inteiro.
Esse óleo precisa voltar pro compressor. Em percurso curto e plano ele volta sozinho, arrastado pelo fluxo de gás.
Em percurso longo, e principalmente em subida, ele tende a ficar pra trás e se acumular nos pontos baixos. Compressor rodando com pouco óleo é compressor com prazo marcado.
É por isso que o limite do fabricante não é uma sugestão conservadora. Ele é o ponto em que o projeto do aparelho ainda dá conta de trazer o óleo de volta.
Os números que costumam valer, e onde achar o seu
Cada modelo tem os próprios limites, e eles estão no manual e às vezes na etiqueta da condensadora. Mas as faixas se repetem bastante em split residencial.
A tubulação que vem contemplada na carga de fábrica costuma ser de três a cinco metros. Esse é o comprimento pro qual a quantidade de gás da etiqueta foi calculada.
O comprimento máximo total, em aparelhos de 9.000 e 12.000 BTUs, geralmente fica na casa dos dez a quinze metros. Modelos maiores costumam permitir mais.
O desnível máximo entre as unidades é um número separado, e menor: em aparelho residencial costuma ficar entre cinco e dez metros.
Passando do comprimento padrão, o fabricante indica uma carga adicional de gás por metro extra, normalmente na casa de algumas dezenas de gramas por metro.
Esses são intervalos típicos, e não substituem o manual do seu modelo. A diferença entre um fabricante e outro é real, e um número errado aqui vira problema caro.
Se você não tem o manual, ele quase sempre está no site do fabricante pelo código do modelo, que fica na etiqueta lateral da condensadora.
A sequência, passo a passo
Faça antes de pedir orçamento. Leva meia hora e muda a conversa.
- Ache o limite do seu modelo. Anote três números do manual: comprimento máximo total, desnível máximo e carga adicional por metro. Sem eles, o resto é chute.
- Meça o percurso real, não a linha reta. Acompanhe com a trena o caminho que o cobre vai fazer de verdade: descendo a parede, contornando a janela, atravessando a laje.
- Some as curvas. Cada curva de noventa graus atrapalha o fluxo, e na prática se comporta como se fosse mais um pedaço de tubo. Percurso com muitas curvas é mais longo do que a trena diz.
- Meça o desnível. Quantos metros de altura separam a evaporadora da condensadora, e qual das duas está por cima. Essa segunda parte muda o encaminhamento.
- Confira contra os limites. Se o percurso estimado passa de 70 ou 80% do máximo do manual, considere seriamente uma posição mais próxima.
- Calcule a carga adicional. Metros além do padrão vezes os gramas por metro. Esse número precisa aparecer no orçamento, com o técnico pesando na balança.
- Verifique a necessidade de sifão. Em subida longa, o projeto costuma pedir curvas em U em intervalos regulares pra ajudar o óleo a subir por etapas.
- Confira o isolamento do percurso inteiro. Todo o cobre precisa estar isolado, inclusive nos trechos escondidos. Tubo nu condensa água na parede e perde frio.
- Feche por escrito. Comprimento contratado, carga adicional e forma de fixação, tudo no orçamento. Metro de tubulação é o item que mais infla conta depois.
Se algum passo travar, o passo que resolve quase sempre é o segundo: reconsiderar o lugar da condensadora antes de aceitar um percurso longo.
Condensadora em cima ou embaixo muda o problema
Duas instalações com o mesmo comprimento total podem se comportar de formas bem diferentes, dependendo de quem está mais alto.
Quando a condensadora está abaixo da evaporadora — caso do apartamento com a unidade externa no térreo ou num nível inferior — o óleo desce com facilidade.
Esse caso é mais tolerante, e o cuidado principal fica com o desnível máximo do manual e com a fixação do trecho vertical.
Quando a condensadora está acima — o caso do aparelho no andar de baixo com a unidade externa na laje — o óleo precisa subir, e é aí que o problema mora.
Nesse arranjo, os limites são mais apertados e as curvas em U passam a ser parte da execução, não um capricho.
Tem uma terceira situação que confunde: percurso longo e quase plano, tipo a condensadora do outro lado da casa, no mesmo nível.
Aqui o desnível não é problema, mas a perda de carga e o volume de gás adicional continuam sendo. Comprimento cobra o preço dele mesmo sem subida.
E existe o detalhe que só aparece depois: quanto mais longe a condensadora, mais difícil ficam as manutenções futuras. Ninguém pensa nisso na instalação e todo mundo lembra na primeira lavagem.
O que acontece quando o limite é estourado
Não explode nada, e é justamente por isso que muito instalador aceita fazer. Os sintomas aparecem depois, e ninguém liga uma coisa à outra.
O primeiro é capacidade menor do que a esperada. O aparelho gela, mas demora mais e não fecha a temperatura em dia quente.
O segundo é consumo maior. Como ele passa mais tempo ligado pra entregar o mesmo resultado, a conta sobe sem explicação aparente.
O terceiro é a formação de gelo, quando a perda de carga é grande o bastante pra desequilibrar o sistema.
O quarto, e o pior, é o desgaste do compressor por falta de óleo de retorno. Esse não dá sintoma nenhum até o dia em que dá, e o dia em que dá costuma ser o fim do aparelho.
Também vale contar o efeito colateral no bolso imediato: percurso longo exige mais gás, mais cobre e mais isolamento, e tudo isso é cobrado por metro.
Se o desempenho já está ruim e você desconfia da instalação, os sinais de perda de capacidade estão reunidos em por que o ar-condicionado não gela como gelava no primeiro verão.
Dois casos que não são projeto novo
Até aqui o texto tratou de quem ainda vai instalar. Mas as duas perguntas que mais chegavam sobre distância vinham de gente com o aparelho já na parede.
Uma é de quem desconfia que a instalação passou do limite e quer saber se dá pra provar. A outra é de quem vai mudar de casa e quer levar o aparelho junto.
As duas têm resposta prática, e nas duas a informação que resolve é a mesma de sempre: o comprimento real do percurso e o limite do modelo.
Já está instalado e você desconfia que passou do limite
Dá pra investigar sem abrir parede, e vale fazer antes de gastar com qualquer diagnóstico.
Comece medindo o percurso por fora. Se a tubulação é aparente, é só acompanhar com a trena. Se ela some dentro da parede, meça o caminho provável entre o furo de saída e a condensadora.
Compare com o limite do manual do seu modelo. Se o número real chegou perto ou passou, você já tem uma hipótese forte pra um aparelho que sempre gelou menos do que deveria.
Procure também o registro de quanto gás foi colocado. Se a instalação exigiu carga adicional e ela não foi feita, o aparelho roda com carga baixa desde o primeiro dia.
Isso é mais comum do que parece, e explica o caso do aparelho que “nunca gelou direito”, desde novo, sem nunca ter dado defeito nenhum.
Um sinal indireto: aparelho com tubulação longa e carga insuficiente costuma formar gelo na tubulação fina em dia quente, e tem um delta de temperatura menor do que o esperado.
O que dá pra fazer depois de confirmar? Menos do que se gostaria. Encurtar percurso significa refazer instalação, e nem sempre há um lugar melhor disponível.
O que quase sempre dá é corrigir a carga: recolher o que tem, fazer vácuo e carregar por peso, considerando o comprimento real da instalação.
Essa correção sozinha já resolve uma parte dos casos, e é bem mais barata do que refazer o percurso inteiro.
Se você vai mudar de casa e quer levar o aparelho
Essa pergunta aparece sempre junto com a da distância, e a resposta tem uma parte técnica e uma parte de bolso.
Tecnicamente, levar dá certo. O procedimento correto se chama recolhimento: o técnico transfere o gás pra dentro da condensadora, fecha os registros, desconecta e leva o conjunto.
Na casa nova, ele refaz os cones de conexão, faz vácuo na tubulação nova e libera o gás guardado. Se a tubulação nova for mais longa, complementa a carga.
O que estraga esse plano é o improviso. Desconectar sem recolher perde toda a carga, e aí a instalação na casa nova já começa exigindo carga completa.
Também é comum querer reaproveitar a tubulação de cobre antiga. Dá, se ela sair inteira e sem amassar, o que raramente acontece em cobre que estava embutido.
Financeiramente, a conta é simples: mudança de aparelho custa quase o mesmo que uma instalação nova, porque o trabalho é praticamente o mesmo.
Então levar compensa quando o aparelho é bom, relativamente novo e de capacidade adequada ao cômodo novo. Não compensa pra aparelho velho, pequeno demais ou de gás em eliminação.
E uma última coisa que resolve muita discussão de inquilino: split instalado com furo na parede é benfeitoria, e o que fica ou sai deveria estar combinado por escrito antes, não na semana da mudança.
Quanto custa cada metro a mais
Vale saber a ordem de grandeza, porque é aqui que orçamento cresce depois de fechado.
Cada metro adicional de tubulação envolve o par de tubos de cobre, o isolamento, o cabo de comunicação, o dreno, a fixação e a mão de obra pra passar tudo isso.
A faixa que eu via cobrada por metro excedente variava muito por cidade e por bitola, mas ela nunca era desprezível: alguns metros a mais mudam o total do orçamento de forma perceptível.
Some a carga extra de gás, que é cobrada à parte quando o comprimento passa do padrão de fábrica.
E some o acabamento, que muita gente esquece: canaleta de PVC, passagem por forro, furo em laje, andaime ou balancim quando a condensadora fica em fachada.
É por isso que a distância aparece tanto na diferença entre um orçamento e outro pro mesmo aparelho. O detalhamento disso está em quanto custa instalar um split de verdade.
Uma regra prática que eu passava: cada metro que você consegue economizar no projeto vale mais do que qualquer desconto negociado no valor final.
Como escolher o lugar da condensadora sem estourar nada
Na prática, a decisão se resume a equilibrar quatro exigências que competem entre si.
Precisa ser perto, pelo que já foi dito. Precisa ter ar circulando livremente, senão a unidade recicla o próprio ar quente e perde rendimento.
Precisa ser acessível pra manutenção, porque ela vai ser lavada uma vez por ano pelos próximos dez anos.
E precisa ter uma base firme, seja parede com estrutura pra receber o suporte, seja laje com apoio adequado. Essa escolha tem consequências próprias, reunidas em suporte da condensadora na parede ou na laje.
Quando as quatro exigências brigam, a que eu sacrificaria por último é a acessibilidade. Condensadora que exige balancim pra ser lavada acaba nunca sendo lavada.
E a que eu sacrificaria primeiro é a estética. Treliça, grade vazada ou pintura resolvem aparência sem custar metro de cobre — foi o que resolveu o caso do quintal lá do começo.
O que perguntar antes de assinar
Três perguntas fecham o assunto e evitam a surpresa mais comum do setor.
A primeira: qual o comprimento total de tubulação previsto neste orçamento, em metros? Se a resposta for vaga, o valor final também vai ser.
A segunda: o que acontece se, na execução, o percurso ficar maior do que o previsto? Deixe combinado o preço do metro excedente antes, e não no dia.
A terceira: vai ser necessária carga adicional de gás, e ela está inclusa? Essa é a que mais some do orçamento e reaparece na hora de pagar.
Peça também que o comprimento executado seja informado no fim do serviço. Você vai precisar desse número em qualquer manutenção futura, e ninguém lembra dele dois anos depois.
Anote junto com a nota fiscal e o modelo do aparelho. É a informação mais barata de guardar e a mais chata de descobrir depois.