Eu passei um verão inteiro convencido de que o ar do meu quarto tinha alguma coisa errada.
Programava pra desligar às três da manhã e acordava às quatro e pouco encharcado, ventilador de teto no máximo, xingando o aparelho.
O aparelho estava perfeito. O errado era o horário que eu escolhia e a forma como eu contava as horas no controle.
O timer é o recurso mais usado e o menos entendido do split. Boa parte das casas que eu atendi tinha programado uma coisa achando que tinha programado outra.
O que vem abaixo é a diferença entre os três recursos que todo mundo chama de timer, e como escolher a hora de desligar sem chutar.
Acordar suando uma hora depois de o ar desligar
A queixa chega sempre com as mesmas palavras. “Botei pra desligar às três e às quatro eu tava acordado, com o travesseiro molhado.”
Tem a variação irritante: a pessoa programa, vai dormir, e o aparelho passa a noite inteira ligado como se o timer não existisse.
E tem a versão cara. O ar liga sozinho às sete da manhã, com todo mundo já saindo pro trabalho, e fica soprando pra parede até alguém chegar de noite.
Essas três reclamações são o mesmo problema com roupas diferentes. Ninguém apertou o botão errado. Erraram o que aquele botão significa naquele controle.
Vi isso em casa de gente organizada, com o manual guardado na gaveta. O manual explica o comando e não explica a lógica por trás dele.
Timer de desligar, timer de ligar e programação por relógio
São três recursos distintos, e o povo chama os três de timer.
O primeiro é o timer de desligar. Com o aparelho ligado, você define um tempo e ele se apaga quando esse tempo acaba.
O segundo é o timer de ligar. Com o aparelho apagado, o mesmo botão muda de função e passa a valer pra ligar sozinho.
O terceiro é a programação por horário de relógio, que só existe em parte dos modelos. Nela você diz “desliga às 3:00” e o aparelho obedece ao relógio.
A armadilha está no meio disso. A maioria dos controles conta horas a partir de agora, não hora do relógio.
Quando o display mostra 3.0h, ele não está falando das três da manhã. Está falando de três horas contadas do instante em que você confirmar.
| Recurso | O que o número significa | Como reconhecer |
|---|---|---|
| Timer de desligar | Horas contadas a partir de agora, com o ar já ligado | O display sobe de meia em meia hora: 0.5h, 1.0h, 1.5h |
| Timer de ligar | Horas contadas a partir de agora, com o ar apagado | Mesmo botão, mas você apertou com o aparelho desligado |
| Programação por horário | Hora cheia do relógio, tipo 23:30 e 06:00 | O controle tem relógio próprio e pede a hora quando troca a pilha |
Pra saber qual é o seu, faça um teste de meia hora numa tarde qualquer. Ligue o ar, programe 0.5h e olhe o relógio do celular.
Se ele apagar trinta minutos depois, o seu timer é relativo. Se o controle tiver pedido uma hora do dia em vez de uma quantidade de horas, é programação por relógio.
Esse teste custa meia hora de compressor e evita meses de noite mal dormida. Vale muito mais do que ler o manual em diagonal.
Quanto tempo o quarto segura o frio depois que o compressor para
Essa é a parte que ninguém calcula, e é ela que decide tudo. Quando o ar desliga, o quarto não esquenta na hora. Ele esquenta num ritmo que depende da construção.
Eu media isso com termômetro nas casas em que fazia manutenção, e a diferença entre dois quartos do mesmo prédio é grosseira.
Quarto de miolo de prédio, com parede compartilhada dos dois lados e nenhum vizinho de sol, costuma levar de duas a três horas pra subir dois graus depois que o compressor para.
Quarto de último andar, embaixo de laje que tomou sol a tarde inteira, sobe os mesmos dois graus em trinta ou quarenta minutos. É o mesmo prédio e é outro mundo.
O motivo é a massa que está em volta de você. Alvenaria, contrapiso e móveis absorvem frio e devolvem devagar.
Já a laje que ficou no sol funciona ao contrário: a face de cima passa fácil dos 50 graus no fim de tarde de janeiro, e ela continua devolvendo calor pra dentro do quarto depois da meia-noite.
Drywall, telhado de fibrocimento e cobertura sem forro seguram quase nada. Quem mora assim precisa de horário de desligamento bem mais tarde que o vizinho do segundo andar.
Tem ainda a fonte de calor que dorme junto com você. Um adulto em repouso solta na casa de 80 a 100 watts de calor.
Dois adultos e um cachorro no mesmo quarto fechado são quase 250 watts ligados a noite inteira. Não é muito, mas num quarto de 10 m² com a porta fechada isso aparece no termômetro.
Por isso o “desligar às três” funciona pra uma pessoa e falha pra outra. Não é preferência nem frescura. É construção.
Programar pela hora em que a rua esfria, passo a passo
A receita abaixo troca o palpite por duas medidas simples. Leva duas noites e depois você nunca mais mexe.
- Descubra que tipo de timer o seu controle tem. É o teste de meia hora que descrevi acima. Sem isso, todo o resto é chute.
- Cronometre a inércia do seu quarto. Numa noite de folga, desligue o ar na mão às onze e anote a hora em que ficou incômodo. Trinta minutos e duas horas são respostas completamente diferentes.
- Anote a hora em que você acorda de verdade. Não a hora do despertador ideal, a hora em que você abre o olho na maior parte dos dias.
- Subtraia uma coisa da outra. Acorda às 6h30 e o quarto segura uma hora e meia? A hora de desligar é 5h, não 3h. Essa conta sozinha resolve a maioria dos casos.
- Converta pra horas contadas. Se você deita às 23h e quer o desligamento às 5h, o número que vai no display é 6.0h, não 5.
- Confirme e confira o ícone. O aparelho dá um bipe e a evaporadora acende a luz de timer. Sem bipe e sem luz, o comando não chegou.
- Revise depois de duas noites. Acordou cedo suando, atrasa meia hora. Acordou com frio, adianta meia hora.
Sobre a hora em que a rua esfria: no Brasil a temperatura externa não cai a noite toda de forma constante. A queda mais rápida acontece nas primeiras horas depois do pôr do sol.
Depois disso ela desce devagar e chega ao ponto mais baixo pouco antes de amanhecer, geralmente entre cinco e seis e meia da manhã.
Ou seja: às três da manhã o lado de fora ainda não está no melhor momento, e o seu quarto de laje ainda está devolvendo o calor da tarde. É o pior horário possível pra cortar.
Em cidade de litoral a conta muda de novo. Lá a temperatura cai pouco de madrugada e a umidade sobe, e o desconforto vem do ar pesado, não do calor.
Nesses lugares eu prefiro deixar o compressor rodando com o termostato mais alto a desligar cedo. Ligado, o aparelho continua tirando umidade do ar.
A escolha do número está em a temperatura que equilibra conforto e conta de luz.
Se o seu aparelho tem o botão de dormir, ele resolve parte disso subindo a temperatura sozinho ao longo da noite, e o que ele faz de verdade está em modo eco, modo sleep e o que cada um faz.
Os erros de contagem que ligam o ar com a casa vazia
Esses aqui eu vi tantas vezes que consigo prever qual foi antes de pegar o controle.
O primeiro é apertar o timer com o aparelho desligado achando que está programando o desligamento. O que você programou foi o contrário: ele vai ligar sozinho.
É assim que o split roda oito horas num apartamento vazio. A pessoa chega em casa, encontra o quarto congelado, e acha que foi defeito.
O segundo é confundir o número com a hora do relógio. Digitar 7.0h às onze da noite não desliga o ar às sete: desliga às seis da manhã.
Parece bobo escrito assim, mas errar por uma hora é justamente o que faz a pessoa acordar suando e culpar o aparelho.
O terceiro é programar e depois mexer no controle. Em vários modelos, qualquer comando novo depois do timer cancela a programação.
Se você programou e dez minutos depois baixou um grau porque estava abafado, tem boa chance de o timer ter ido embora junto. Reprograme sempre por último.
O quarto é apagar o aparelho no botão depois de deixar o timer armado. Aparelho desligado na mão perde a programação de desligamento.
O quinto é usar o timer junto com o modo de dormir sem saber qual dos dois manda. Em quase todos os modelos os dois convivem, mas o comportamento muda de fabricante pra fabricante.
O sexto é manter o mesmo horário o ano inteiro. Noite de janeiro e noite de abril não pedem a mesma coisa, e o horário que funcionava no verão deixa você com frio no outono.
E tem o erro que custa dinheiro em vez de sono. Desligar muito cedo pra economizar, acordar no calor às cinco e religar no modo turbo às seis.
Aquela hora de recuperação com o compressor a plena carga come boa parte do que você economizou nas três horas anteriores. Cortar cedo demais nem sempre é o mais barato.
Quando o timer não obedece: pilha, relógio perdido e controle universal
Antes de achar que a placa do aparelho pifou, vale eliminar as três causas bobas. Nessa ordem.
A primeira é a pilha. Controle com pilha fraca ainda liga o ar quando você aponta de perto, mas falha a dois metros de distância.
O sintoma clássico é o comando pegar na primeira tentativa de dia e não pegar de noite, com você deitado na cama, longe da evaporadora.
Troque as duas pilhas juntas, alcalinas, e não misture uma velha com uma nova. Custa uns poucos reais e resolve boa parte das chamadas de “timer com defeito”.
A segunda coisa a saber é onde o timer mora, porque isso muda o diagnóstico. Na maioria dos splits, o controle manda o comando uma vez e quem faz a contagem é a placa da evaporadora.
Em alguns modelos, e em praticamente todo controle genérico, quem conta é o próprio controle, que precisa disparar o comando na hora certa.
Existe um teste de dez segundos pra saber qual dos dois é o seu. Programe o desligamento pra meia hora, tire as pilhas do controle e espere.
Se o ar apagar sozinho mesmo com o controle sem pilha, quem conta é o aparelho e você pode dormir tranquilo. Se não apagar, quem conta é o controle, e ele precisa estar apontado e com pilha boa a noite inteira.
A terceira é a queda de energia. Aparelho com programação por relógio perde a hora quando falta luz, e o relógio piscando 0:00 no controle é o aviso disso.
Nesse estado a programação continua gravada, mas ancorada num relógio errado. É como manter o despertador com o horário do fuso trocado.
Tem ainda o religamento automático, que muitos modelos trazem de fábrica. Depois da luz voltar, o aparelho retoma o último estado, e é comum ele acordar ligado às três da manhã de um jeito que ninguém pediu.
Sobre o controle universal daqueles de vinte a quarenta reais: ele liga, desliga, muda temperatura e modo. O timer quase nunca vai.
O código genérico dele cobre os comandos básicos, e o pacote de programação de cada fabricante fica de fora. Se o timer é essencial pra você, é controle original ou aplicativo.
Aliás, o agendamento pelo celular mata o problema da contagem de horas de uma vez. Ele trabalha com hora de relógio de verdade.
Se isso pesa na sua decisão de compra, vale ver se o ar-condicionado com wi-fi vale a pena.
E confira uma coisa boba antes de tudo: se o receptor da evaporadora está atrás de cortina, quadro ou porta de guarda-roupa aberta, nenhum comando chega.
O que já não é problema de programação
Uma parte das reclamações de timer não tem nada a ver com timer. São defeitos que aparecem justamente no horário em que a pessoa estava esperando alguma coisa acontecer.
- O aparelho desliga sozinho em horário aleatório, sem timer armado. Isso costuma ser proteção térmica atuando, não programação.
- Desliga e volta em poucos minutos, várias vezes na mesma noite. É ciclo curto, e as causas moram no aparelho: sensor, condensadora suja ou carga de gás.
- O ar não apaga nem pelo controle, e só para quando você desliga o disjuntor. Aí é caso de técnico e não é pra ficar assim, porque o compressor está trabalhando sem comando.
- A evaporadora pisca um código no display no momento em que o timer deveria agir. Anote o código antes de chamar alguém, porque ele encurta o serviço pela metade.
- O quarto não gela mais como gelava antes, então nenhum horário resolve. Programação não conserta perda de capacidade.
Fora esses casos, o resto é ajuste de horário, e ajuste de horário é coisa que você faz sozinho numa noite.
Se não quiser fazer teste nenhum, o palpite que mais acerta é desligar uma hora e meia antes da hora em que você costuma acordar. De lá você corrige meia hora pra frente ou pra trás.
É bem diferente das três da manhã que quase todo mundo coloca por hábito, e foi o que resolveu o meu verão.