Quantos BTUs o seu quarto precisa de verdade? Se a resposta que você achou foi “12 m² pede 9.000”, ela está pela metade.
Passei seis anos instalando split, primeiro como ajudante e depois por conta própria. O número de aparelho trocado dentro do primeiro verão por causa de conta errada não é pequeno.
A metragem é a primeira linha do cálculo, não o cálculo inteiro. Faltam o pé-direito, o sol da janela, quantas pessoas dormem ali, o que fica ligado e o que existe acima do teto.
Vou passar essas perguntas uma por uma, com a conta feita em cima de quartos reais.
A regra dos 600 BTUs por metro quadrado ainda serve?
Serve como ponto de partida, e só. Ela nasceu de uma média: casa de alvenaria, pé-direito entre 2,50 e 2,70 m, uma pessoa dentro do cômodo.
São 600 BTU/h por metro quadrado quando o quarto não pega sol direto ou pega o sol da manhã. Sobe pra 800 BTU/h por m² quando a janela toma sol da tarde.
Essa diferença de 200 BTU/h por m² não é detalhe de planilha. Num quarto de 14 m² ela vale 2.800 BTUs, que é exatamente a distância entre um 9.000 e um 12.000.
O que a regra tenta estimar é carga térmica: quanto calor entra no cômodo por hora e quanto o aparelho tem que tirar pra segurar a temperatura.
Cálculo de carga térmica de verdade é planilha de engenharia, com orientação de fachada, tipo de vidro e cor de parede. Pra um quarto de casa, a regra de bolso chega perto.
Ela erra uns 15% pra mais ou pra menos, o que é tolerável. O problema aparece quando ela é usada sozinha, sem os acréscimos. Aí os 15% viram 40% e o aparelho não desliga nunca.
Tem mais uma coisa que a regra pressupõe e quase ninguém confere: porta fechada. O cálculo vale pro volume do quarto, não pra metade da casa.
Quarto que fica com a porta aberta pro corredor está resfriando o corredor também. Se é esse o seu uso, some pelo menos 30% no total.
Suíte com a porta do banheiro sempre aberta é o caso mais comum. Aí some a área do banheiro inteira na metragem, porque o ar circula entre os dois.
Meu quarto tem 12 m², então 9.000 BTUs resolvem?
Depende de mais cinco coisas. Vou fazer a conta de um quarto que eu instalei dezenas de vezes, com pequenas variações.
Quarto de casal de 3,50 m por 3,20 m, que dá 11,2 m². Janela de 1,20 por 1,20 virada pro oeste, daquelas que tomam sol das duas às cinco da tarde.
Televisão de 50 polegadas na parede da frente da cama. Último andar de um sobrado, laje sem cobertura em cima.
Primeira linha, com sol da tarde: 11,2 vezes 800 dá 8.960 BTU/h. Segunda pessoa na cama: mais 600, vai pra 9.560.
Televisão LED de 50 polegadas: mais 350, chega em 9.910. Laje descoberta assando o dia inteiro: mais 20%, fecha em 11.900 BTU/h.
Ou seja, 12.000. E o quarto nem chega aos 12 m² que a tabela de vendedor usa pra empurrar o 9.000.
Agora troque só duas coisas. Janela virada pro leste e apartamento de meio de prédio, sem laje exposta.
A base cai pra 600 por m² e dá 6.720. Mais a segunda pessoa e a televisão, fecha em 7.670 BTU/h. Aqui o 9.000 é folga confortável, e ainda sobra.
Mesmo tamanho de quarto, dois aparelhos diferentes. É por isso que perguntar “quantos BTUs pra 12 m²” não tem resposta única.
A tabela abaixo é o chute educado que eu usava pra dar um primeiro número por telefone, antes de ver o imóvel.
| Capacidade | Quarto sem sol da tarde, 1 pessoa | Quarto com sol da tarde, 2 pessoas |
|---|---|---|
| 9.000 BTU/h | até 12 m² | até 9 m² |
| 12.000 BTU/h | 12 a 16 m² | 9 a 13 m² |
| 18.000 BTU/h | 16 a 25 m² | 13 a 20 m² |
| 22.000 BTU/h | 25 a 30 m² | 20 a 25 m² |
| 30.000 BTU/h | 30 a 40 m² | 25 a 33 m² |
Essa tabela já supõe pé-direito de 2,60 m e nada de laje exposta. Se o seu caso tem qualquer um dos itens das próximas seções, ela é só o começo da conta.
Pé-direito alto muda o cálculo?
Muda, e é o item que mais some da conta. A regra é por metro quadrado, mas o que o aparelho tem que resfriar é metro cúbico.
Um quarto de 12 m² com pé-direito de 2,60 m tem 31 m³ de ar dentro. O mesmo quarto num prédio antigo, com 3,20 m de altura, tem 38 m³. São 23% a mais de ar.
Não precisa somar os 23% inteiros. O ar não guarda tanto calor assim, e a evaporadora fica instalada lá em cima, justamente onde o ar quente se acumula.
A regra prática que eu usava em obra: 10% a mais pra cada 50 cm acima de 2,70 m de pé-direito.
Num quarto com 3,50 m de altura isso dá 16%. Em cima de um 12.000, são quase 2.000 BTUs que somem da conta se ninguém mediu o teto.
Meça com trena, não confie no olho. Apartamento novo costuma ter 2,50 m e casa dos anos 70 passa fácil de 3 m.
Se o teto for inclinado, tire a média entre o ponto mais baixo e o mais alto. Sótão convertido em quarto é o pior caso: pé-direito alto e telha logo acima da cabeça.
Duas pessoas dormindo somam quanto?
Um adulto parado libera por volta de 100 W de calor. Em BTU/h isso dá 340, porque 1 W equivale a 3,412 BTU/h. Guarde essa conversão, ela serve pro resto do artigo.
Dormindo, o corpo cai pra uns 70 ou 80 W. Só que junto com o calor sai umidade, e tirar umidade do ar também consome capacidade do aparelho.
Por isso a regra do mercado soma 600 BTU/h por pessoa e não 340. Ela já embute a parte úmida da carga, que é invisível no termômetro mas pesa no compressor.
A primeira pessoa não entra nessa soma, porque já está dentro dos 600 por m². Some a partir da segunda.
Quarto de criança com beliche e três dormindo junto: mais 1.200 em cima da base. É o tipo de quarto que engana todo mundo, porque é o menor da casa.
Cachorro de porte médio deitado no chão libera perto de 60 W, uns 200 BTU/h. Sozinho não muda a faixa do aparelho, mas soma com o resto.
Onde isso vira problema de verdade é em quarto que também recebe gente. Corpo em esforço, tipo alguém que treina em casa, passa dos 300 W.
Se o quarto é só de dormir, uma pessoa, sem visita, pode ser conservador aqui. Não vale inflar a conta com cenário que nunca acontece.
Uma janela de sol da tarde vale quantos BTUs?
Mais do que quase todo mundo imagina. Vidro comum deixa passar cerca de 80% da radiação solar que bate nele, e o resto ainda esquenta o próprio vidro.
No verão, uma fachada oeste no meio da tarde recebe algo entre 500 e 700 W por metro quadrado de vidro. Varia com a latitude, a hora e a nuvem do dia.
Faça a conta numa janela de 1,20 por 1,20, que são 1,44 m². Dá de 700 a 1.000 W entrando pelo vidro, o que em BTU/h vira de 2.400 a 3.400.
É um secador de cabelo ligado dentro do quarto, das duas às cinco da tarde, todo santo dia de janeiro.
Por isso a regra sobe de 600 pra 800 quando o sol é da tarde. E por isso cortina não é frescura, é redução de carga térmica.
Só que cortina por dentro corta menos do que parece. O vidro já esquentou e devolve esse calor pro quarto por convecção, mesmo com o tecido fechado.
Persiana externa, brise ou película refletiva barram bem mais, porque impedem a radiação de chegar no vidro. Película escura comum reduz o brilho e pouco mais que isso.
Se você não sabe pra onde a janela está virada, abra a bússola do celular encostada no parapeito. Oeste é o lado ruim, leste pega sol até umas dez da manhã e alivia.
Janela de tarde com blackout e persiana externa pode ser calculada com os 600, não com os 800. Sem nada disso, use 800 e não discuta.
TV, computador e frigobar somam BTUs de verdade?
Somam o que consomem. Tudo que gasta energia elétrica dentro do quarto vira calor lá dentro, praticamente sem perda nenhuma.
A regra antiga mandava somar 600 BTU/h por eletrônico ligado. Ela foi escrita quando televisão era de tubo e puxava 150 W ou mais.
Uma LED de 55 polegadas de hoje fica entre 70 e 110 W ligada. São 250 a 380 BTU/h. Somar 600 por ela infla o cálculo e te empurra pra um aparelho maior à toa.
Computador é outra história. Um desktop com placa de vídeo rodando jogo pesado dissipa de 300 a 500 W, o que dá de 1.000 a 1.700 BTU/h.
Quarto que virou escritório, com dois monitores e uma torre ligada oito horas por dia, entra fácil na faixa de mais 1.500 BTU/h de carga extra.
Notebook não conta quase nada: de 40 a 65 W, uns 200 BTU/h. Carregador de celular, menos ainda. Não vale somar.
Frigobar no quarto pede entre 200 e 400 BTU/h. Ele passa boa parte do tempo com o compressor parado, mas quando roda joga todo o calor dentro do cômodo.
O jeito honesto de fazer essa parte é olhar a etiqueta de cada aparelho, pegar a potência em watts e multiplicar por 3,412. Some só o que fica ligado ao mesmo tempo.
Lâmpada moderna quase não pesa. Uma LED de 9 W solta 30 BTU/h e nem entra na conta. Se ainda houver incandescente, aí sim, cada uma vale 200.
Morar embaixo de laje ou de telha muda a conta?
Muda mais que qualquer outro item da lista. O teto costuma ser a maior superfície do quarto exposta ao sol, e ninguém consegue pôr cortina nele.
Laje de concreto descoberta assa o dia inteiro e leva de três a quatro horas pra devolver esse calor pra dentro de casa.
É por isso que existe quarto de cobertura que só fica insuportável às dez da noite, quando o sol se pôs faz tempo e a rua já esfriou.
Nesses quartos eu somava de 20% a 30% em cima do total. Sem esse acréscimo o aparelho até gela, mas trabalha o tempo todo e nunca descansa.
Telha cerâmica com forro e um vão de ar no meio se comporta diferente. O pico chega mais cedo, entre duas e quatro da tarde, e é mais agudo.
Telha de fibrocimento sem forro é o pior caso que eu vi em obra. Ali some 30%, e ainda vale a conversa: manta térmica sob a telha sai mais barata que subir de faixa no aparelho.
Apartamento de meio de prédio, com vizinho em cima e vizinho embaixo, não soma nada. Andar intermediário é o cenário fácil, e é o que a tabela de vendedor pressupõe.
Parede de fachada oeste sem sombra também pesa, embora menos que o teto. Se o quarto tem duas paredes externas viradas pro sol da tarde, some mais 10%.
Comprar maior pra garantir dá errado?
Dá, e o jeito como dá errado depende do tipo de aparelho.
Num split convencional o compressor tem só dois estados: ligado no máximo ou desligado. Aparelho grande demais atinge a temperatura em poucos minutos e corta.
O problema é que desumidificar leva tempo. Ciclo curto não dá tempo da serpentina condensar a água que está no ar do quarto.
O resultado é aquele frio grudento, quarto marcando 21 graus e continuando abafado. Muita gente troca o aparelho achando que veio com defeito de fábrica.
Some a isso a corrente de partida. O compressor puxa de 4 a 6 vezes a corrente nominal a cada arranque, e ligar de cinco em cinco minutos desgasta o motor.
No inverter o estrago é menor, porque ele modula a rotação em vez de cortar. Só que ele tem piso: a maioria não desce abaixo de 25% a 35% da capacidade nominal.
Um inverter de 18.000 num quarto de 10 m² não trabalha abaixo de uns 5.000 BTU/h. Ele volta a ligar e desligar, que é exatamente o que você pagou caro pra evitar.
Em quarto muito pequeno, de 6 a 8 m², até o menor split já sobra. Se for imóvel alugado e não der pra furar parede, vale checar antes se um portátil dá conta do recado.
E tem o custo. Subir de 9.000 pra 12.000 costuma sair de 15% a 25% mais caro no aparelho, com conta de luz maior no fim do mês e conforto nenhum a mais.
Errar pra baixo também cobra caro, só que de outro jeito. Aparelho pequeno demais nunca chega na temperatura pedida e roda no máximo o tempo inteiro.
Um 9.000 num quarto que pedia 12.000 marca 25 ou 26 graus às três da tarde, por mais que o controle esteja em 22. Ele não está com defeito, está no limite.
E o consumo mensal dele acaba maior que o do 12.000 correto, porque o 12.000 atinge a temperatura e reduz, enquanto o pequeno não reduz nunca.
E se a conta cair no meio de dois modelos?
Acontece direto. Sua conta fechou em 14.800 BTU/h e o mercado só vende 12.000 e 18.000.
A regra que eu usava é simples. Se o número passa do modelo menor em até 10%, fica no menor. Acima disso, sobe pro maior.
Os 14.800 passam 23% do 12.000, então sobe. De preferência inverter, que modula e aguenta melhor a folga de capacidade.
Se a conta tivesse fechado em 13.100, eu ficaria no 12.000. Aparelho trabalhando perto do limite tira umidade melhor, custa menos e sofre menos partida por hora.
Duas ressalvas antes de fechar a compra. A primeira é elétrica: acima de 18.000 quase tudo é 220 V, e o circuito costuma pedir disjuntor exclusivo.
Dimensionar disjuntor e bitola de fio é serviço de eletricista, não de instalador de ar-condicionado. Não improvise nessa parte.
A segunda ressalva é que a conta muda com o tempo. Aparelho bem dimensionado que para de dar conta depois de dois verões quase sempre está sujo, não pequeno.
A unidade externa entupida de poeira e fiapo derruba a capacidade real em 10% a 20%. Você comprou 12.000 e está usando 10.000 sem saber.
Antes de ir à loja, anote seis linhas num papel. Metragem, altura do teto, orientação da janela, quantas pessoas dormem ali, o que fica ligado e o que existe acima do teto.
Com esses seis números você refaz a conta em dois minutos no balcão. E não fica dependendo do que o vendedor acha do seu quarto sem nunca ter entrado nele.