Eu aprendi a diagnosticar aparelho pelo telefone antes de aprender a consertar. Não por talento: é que o cliente descrevia o barulho, e o barulho já dizia quase tudo.
Split é uma máquina silenciosa por projeto. A evaporadora de um aparelho novo, na velocidade mínima, fica na casa dos 20 a 25 decibéis, que é menos que uma conversa sussurrada.
Por isso qualquer som novo chama atenção tão rápido. Não é que o aparelho ficou barulhento — é que ele passou a fazer um som que não fazia.
Antes de olhar qualquer coisa, faça uma coisa que vale por meia hora de conversa: grave. Vinte segundos de vídeo com o celular a um metro do aparelho.
Grave dentro e grave fora, separado. Metade dos casos que chegavam como “barulho no ar” eram barulho na unidade externa, e o morador nem tinha ido lá conferir.
Abaixo estão os seis sons que eu mais ouvi, o que cada um denuncia e o que fazer com cada um.
1. Estalo seco na carcaça, quando liga e quando desliga
É aquele “tec” isolado, alto o suficiente pra acordar quem tem sono leve, vindo do corpo plástico da evaporadora.
Costuma acontecer nos primeiros minutos depois de ligar e de novo alguns minutos depois de desligar. Fora desses momentos, silêncio total.
Esse é dilatação térmica. A carenagem plástica encolhe quando é resfriada e volta ao tamanho quando aquece, e o encaixe entre as peças estala nesse movimento.
Não denuncia defeito nenhum. É o som mais inofensivo da lista, e o mais reclamado, porque acontece exatamente na hora de dormir.
O que dá pra fazer é reduzir. Conferir se todas as presilhas da carenagem estão fechadas ajuda, porque peça meio solta estala mais que peça travada.
Se o estalo apareceu logo depois de uma limpeza, é quase certo que uma presilha ficou aberta na remontagem. Passe o dedo pela borda de baixo da carenagem procurando fresta.
Urgência: nenhuma. Se o único sintoma é o estalo, o aparelho está bem.
2. Chiado agudo e contínuo, tipo panela de pressão baixinha
Esse é fino, constante, e some quando o compressor para. Muita gente descreve como “assobio” ou “vazando ar”.
Um chiado leve na partida é normal: é o refrigerante entrando na válvula de expansão e mudando de estado. Dura segundos e some.
O que denuncia problema é o chiado que fica. Refrigerante em quantidade insuficiente passa pela válvula de um jeito diferente, e o som muda de caráter.
Ele quase nunca vem sozinho. Vem acompanhado de aparelho gelando pouco, de gelo na tubulação fina ou de um ciclo de “gela bem vinte minutos e desiste”.
Se dois ou três desses aparecem juntos, o assunto é carga, e o roteiro inteiro de verificação está em quando o gás do ar-condicionado realmente acaba.
Urgência: média. Não é risco imediato, mas rodar meses com carga baixa força o compressor, e compressor é a peça que decide se o conserto vale a pena.
3. Borbulho de água, como um copo sendo bebido devagar
Som molhado, intermitente, vindo do lado direito da evaporadora, geralmente com o aparelho já ligado há um tempo.
Na esmagadora maioria das vezes é o dreno. A mangueira está com um trecho segurando água e o ar passa por dentro dela, fazendo bolha.
É típico de mangueira com barriga, aquele trecho que desce, sobe e desce de novo. Também aparece quando a ponta lá fora ficou submersa numa poça ou num ralo com água.
Tem um caso específico: prédio com tubo coletivo de condensado, onde o borbulho vem da coluna e não do seu aparelho.
Existe uma versão menos comum e mais séria, em que o borbulho é do próprio refrigerante circulando com carga baixa. A diferença é o cheiro e a companhia: dreno borbulhando não faz o aparelho gelar menos.
Se junto com o borbulho começou a pingar água dentro de casa, o caminho é outro e está em ar-condicionado pingando dentro de casa.
Urgência: baixa, mas não deixe passar a temporada. Dreno segurando água é a antessala do dreno entupido.
4. Batida ritmada ou raspagem, no compasso do ventilador
Esse tem uma assinatura fácil de reconhecer: o som acompanha a velocidade do ar. Aumenta a velocidade no controle, o barulho acelera junto.
Quase sempre é a turbina, aquele rolo comprido de pás que empurra o ar. Ou tem alguma coisa encostando nela, ou ela está desbalanceada.
Encostar em alguma coisa é o caso simples. Já achei fita de embalagem, folha seca, pena de pombo e uma vez um lego dentro da carcaça.
Desbalanceamento é o caso chato. Acontece quando a crosta acumulada nas pás soltou de um lado e não do outro, e o rolo passa a girar torto.
Aí o som é mais grave e vem com vibração que dá pra sentir com a mão na carenagem. Não se resolve com limpeza de filtro: precisa de lavagem da turbina.
Existe ainda o mancal do eixo, que resseca e produz um chiado metálico agudo na partida, sumindo depois de alguns segundos. Esse é o mais próximo de “vai quebrar” da lista.
Dá pra separar os três sem abrir nada, prestando atenção em quando o som aparece.
Objeto encostando faz barulho desde o primeiro segundo, sempre igual, em qualquer velocidade. É o mais constante dos três.
Turbina desbalanceada só incomoda de verdade nas velocidades altas, e some quase por completo na mínima, porque a força que joga o rolo pro lado cai junto com a rotação.
Mancal seco faz o oposto: grita na partida, quando o motor está vencendo a inércia, e depois se acomoda. E piora nos dias frios.
Se o som está no meio-termo dos três, use a velocidade como teste. Passe manualmente por mínima, média e máxima, deixando meio minuto em cada, e repare em qual delas ele muda de caráter.
Urgência: alta se for raspagem contínua. Objeto encostando na turbina desgasta a pá e desalinha o eixo em pouco tempo.
5. Zumbido grave da unidade externa, com a janela vibrando junto
Esse é o barulho que gera briga de vizinho, e é o mais mal diagnosticado de todos, porque o aparelho não tem defeito nenhum.
A condensadora vibra por natureza: tem um compressor e um ventilador girando dentro de uma caixa de metal. Ela sai de fábrica apoiada em coxins de borracha justamente pra absorver isso.
Quando o coxim resseca, achata ou nunca foi instalado, a vibração vai direto pro suporte, do suporte pra parede, e a parede vira caixa de som.
O sinal que confirma: o zumbido muda de intensidade se você encostar a mão na estrutura, ou se apoiar o pé no suporte.
Troca de coxim é serviço barato, de vinte minutos, e resolve boa parte desses casos. Se a condensadora fica em fachada ou sacada alta, é trabalho em altura e não é pra fazer sozinho.
Tem uma variação: o zumbido que só aparece de madrugada. Não é o aparelho mudando de comportamento, é o ruído de fundo da rua caindo e deixando ele audível.
Urgência: baixa pro aparelho, alta pra convivência. Vibração transmitida à estrutura também afrouxa conexão com o tempo, então não é só incômodo.
6. Clique repetido, com o aparelho tentando ligar e não ligando
Esse é o único da lista em que eu diria pra desligar no disjuntor antes de continuar tentando.
O padrão é característico: a condensadora dá um clique, o ventilador dela chega a esboçar um giro, e tudo para. Alguns segundos depois, tudo de novo.
Isso é o compressor tentando partir e não conseguindo. Na maior parte dos casos é o capacitor de partida, que perdeu capacidade e não entrega o empurrão inicial.
Capacitor é peça barata e a troca é rápida, mas ele armazena carga e é serviço de quem sabe descarregar antes de tocar. Não é peça de dono de casa.
A outra possibilidade é o protetor térmico do compressor atuando, desligando pra não queimar. Aí a causa está antes: condensadora sufocada, tensão baixa ou carga de gás errada.
Deixar o aparelho tentando partir a cada trinta segundos por horas é o caminho mais rápido pra queimar o compressor, e compressor queimado normalmente encerra a vida útil do aparelho.
Antes de chamar alguém, olhe a unidade externa. Grade obstruída e aletas sujas causam desligamento por térmico com frequência, e isso está em a unidade externa precisa de limpeza também.
Urgência: máxima. Esse é o único da lista que piora sozinho a cada tentativa.
Antes de tudo: descobrir de onde o som está vindo
Esse passo parece bobo e ele é o que mais economiza dinheiro, porque split engana a orelha.
A tubulação de cobre liga as duas unidades e conduz som muito bem. Vibração que nasce na condensadora chega no quarto pelo cobre e parece estar saindo da parede de dentro.
O teste que separa é simples. Desligue tudo e ligue o aparelho no modo ventilar, sem frio: nesse modo a unidade externa não trabalha.
Se o barulho continua igual no modo ventilar, ele é da evaporadora — turbina, mancal, alguma coisa encostando. Se some, o som é da unidade externa ou do compressor.
Faça o inverso pra confirmar: peça pra alguém ficar perto da condensadora enquanto você liga o frio. Barulho que nasce lá é sempre mais alto lá.
Tem um terceiro lugar que ninguém considera, e é responsável por uma parte boa dos casos: a estrutura da casa.
Suporte parafusado em parede de gesso, condensadora apoiada numa laje fina ou tubulação encostada num caixilho metálico transformam a construção em amplificador.
O sinal disso é o barulho que muda quando você encosta a mão na parede, no caixilho ou no suporte. Aparelho com defeito não muda de som porque alguém encostou nele.
Já resolvi caso de “aparelho barulhento” cortando um pedaço de borracha e pondo entre o tubo de cobre e a esquadria da janela. Custou nada e acabou com o zumbido de dois anos.
Como usar a gravação pra não ser enganado
Volto ao vídeo do começo, porque ele resolve um problema prático que ninguém comenta.
Barulho intermitente tem o hábito de sumir exatamente quando o técnico chega. Você paga a visita, ele não ouve nada, e o problema volta na mesma noite.
Com o vídeo, a conversa começa de outro lugar. E quem trabalha com isso identifica pela gravação com uma facilidade que surpreende.
Grave em três situações: no primeiro minuto depois de ligar, depois de meia hora rodando, e no momento de desligar. Os três momentos denunciam coisas diferentes.
Anote junto o que estava acontecendo: velocidade do ventilador, temperatura pedida, se estava chovendo. Ruído que só aparece na velocidade máxima é pista, não detalhe.
Se o aparelho tem um decibelímetro de celular por perto, meça a poucos metros e anote. Não pela precisão, que é baixa, mas pra ter comparação depois do conserto.
E guarde uma referência: um split silencioso, em quarto fechado à noite, na velocidade baixa, fica perto do que o ambiente já era antes de ele ligar. Se você percebe o aparelho o tempo todo, tem coisa acontecendo.